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IDIOTIA CIBERNÉTICA

Às vezes tenho a nítida impressão de que sou um caminhante otário pela vida. Principalmente quando o assunto é tecnologia, não a tecnologia global, capaz de grandes feitos e arroubos, mas a tecnologia doméstica. Tenho o privilégio da idade avançando, sempre me interessei pelo assunto e acompanho a busca incessante pela imagem perfeita.

Guardo, como relíquias, uma filmadora Braun e um projetor Sanyo, dos antigos filminhos de Super-8, aqueles de celulose, adquirido ainda em Taió, em 1978. Fazia-se boas filmagens, embora os controles não fossem automatizados. Só mais tarde, após a revelação, é que se podia ver o resultado.

Os filmes duravam em média quatro minutos e quinze segundos. O pior é constatar que num filminho desse tamanho é possível registrar-se tranquilamente um aniversário de criança, ou um casamento ou um encontro familiar.

No início dos anos 1980, eu apreciando de longe meio cortado dos trocos, vieram as filmadoras portáteis VHS, após uma disputa deste formato com o betamax, cuja imagem era superior, mas não conseguiu se impor e sucumbiu. Foi a primeira grande roubada que nos impingiram. Quem adquiriu um vídeo-cassete com o sistema betamax ficou a ver navios.

As primeiras filmadoras digitais eram enormes, verdadeiros trambolhos, o módulo de gravação era separado da câmara propriamente e ficava pendurado a tiracolo. Acho que o conjunto pesava uns cinco quilos.

Um amigo adquiriu uma dessas e suas primeiras filmagens foram de uma pescaria no Mato Grosso. Quatro horas de filmagem de viagem, travessia de balsas, caçadores bêbados, e outros parangolés, conseguem ser mais chatas que o dumingão do Faustão. Senti saudades do super-8. A imagem era ruim, como nos filmes VHS que a gente alugava.

Depois surgiu o SVHS (super-VHS) que anunciava melhoras que nunca percebi, e que sumiu com advento do devedê, este sim um progresso em termos de qualidade de imagem digital. Hoje se pode escolher uma filmadora que grave em fita, em devedê ou num disco rígido.

Recentemente apareceram as tevês de plasma e LCD, anunciando nitidez e fidelidade da imagem, e o próprio sinal digital, ainda não disponível na maioria das cidades brasileiras. Para quem comprou a de plasma, más notícias: sua durabilidade é menor que as de LCD e está fadada ao desaparecimento, como as fitas betamax. É esse tipo de peça que nos prega a tecnologia e que me faz sentir um idiota seguindo pela vida, à mercê de exploradores.

A imagem, numa LCD, fica mais arranjada. O sistema corrige artificialmente falhas para que pareça linear e constante. Mas não consegue ser muito fiel. Percebe-se nitidamente o aspecto cadavérico de alguns artistas e apresentadores, principalmente naqueles que estão mortos há muito tempo, mas insistem em aparecer na tevê. Para meu gosto, a imagem é muito artificial.

O devedê, quando surgiu, foi anunciado como a solução definitiva para o problema de imagem. Banquei o idiota e acreditei. Adquiri uma razoável quantidade de filmes, na base de três por mês, sempre na promoção, e formei uma pequena filmoteca.

A solução, entretanto, ao contrário do anunciado, não era definitiva. Vieram o Blu-ray e o HD-DVD, um aperfeiçoamento do devedê prometendo nitidez de imagem e qualidade de som ainda maiores. O HD-DVD não pegou. Mas o Blu-ray está aí. Entretanto, ninguém deve se sentir seguro em adquirir as mídias, por enquanto. Desta vez já estão prevendo outra solução definitiva para uma imagem ainda melhor: o cedê holográfico, com capacidade de um terabyte...

Certamente não vai parar por aí. A nece$$idade faz com que o homem procure soluções mesmo quando não há problemas. E esta saga em busca da imagem perfeita é emblemática. É preciso melhorar sempre, mesmo que já esteja bom, para que nos sintamos cada vez mais idiotas caminhando pela vida.

Eu, na minha imbecilidade cronificada, penso: nesse ritmo, é possível que algum dia se chegue digitalmente à perfeição da imagem da fita de 35 mm de celulose, aquela insubstituível do cinemascope.



Escrito por Ilton: às 15:45
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LULA NÃO QUER A REELEIÇÃO?

Uma vez, há muitos anos, Lula falou que na Câmara dos Deputados havia 300 picaretas. Ele era deputado federal e não se excluiu.

Se os demais ainda estiverem por lá ele pode se considerar candidato à re-reeleição. Por enquanto apenas 176 dos 299 tiveram coragem de se manifestar mais arrojadamente: os que assinaram a proposta de emenda constitucional apresentada pelo deputado Jackson Barreto, do PMDB do Sergipe, estabelecendo a possibilidade de reeleição por mais um mandato de prefeitos, de governadores e de Lula, digo, e de presidente da República.

Essa PEC não é surpresa para ninguém. Não impressiona mais, embora devesse impressionar e preocupar. É banalizando instituições e as diminuindo aos olhos do povo, principalmente pela reiteração continuada de intenções absurdas, que pela mecânica se tornam comezinhas, é que o PT conseguiu chegar lá e lá consegue se manter.

Segue-se aqui, talvez com um pouco mais de dificuldade, a tendência pré-histórica reinaugurada por Hugo Chávez que detém os poderes que Lula reza toda noite para conseguir. Hugo Chávez está construindo democraticamente uma ditadura. Sonho acalentado pelos petistas saudosos de uma época que jamais existiu e que faz das manhãs de Lula um pesadelo: ele acorda e se decepciona ao ver que não vive a mesma realidade bolivariana.

Por isto e por enquanto, vivaldinamente, diz que não aceita a reeleição. Acredite se quiser! Claro que ele quer. Apenas está sendo esperto para, se for aprovada a PEC, dizer que fica porque a decisão do Congresso ao aprovar a emenda foi democrática. Aquele negócio de voltar nos braços do povo. Perguntem ao rato se ele despreza o queijo.

Lembram da 17.ª Cúpula Ibero-Americana em Santiago do Chile? Aquela em que o companheiro (dele) Hugo Chávez levou um puxão de orelhas internacional do rei Juan Carlos I, de Espanha, transmitido ao vivo e a cores para o mundo, o famoso por qué no te callas?

 Lula, em entrevista após defendeu Chávez e a democracia bolivariana, numa explosão inconsciente, ou nem tanto, do desejo de implantá-la por aqui:

Podem criticar o Chávez por qualquer outra coisa, gente, inventem uma coisa para criticar o Chávez. Agora, por falta de democracia na Venezuela não é, ou seja, este home... Eu estou há oito anos, estou há oito anos, eu estou há cinco anos no poder, vou chegar a oito anos, eu participei de duas eleições, duas prá presidente duas prá prefeito, que eu sei na Venezuela já teve três referendos, já teve três vezes eleições não sei prá onde, já teve quatro plebiscitos, já teve... Ou seja, o que não falta é discussão.

Chávez está democraticamente construindo uma Ditadura. O problema é que o estradista Lula confunde muito as coisas e muitas coisas, entre elas Legalidade e Democracia. Sua defesa de Chávez se baseia no equivocado princípio de que o que está no esquema da lei é democrático.

Lula, ao contrário do molusco do mesmo nome, não mergulha fundo no mar ideológico. Vive nas marolas da superfície, mas se mantém liso e escorregadio.

Embala Chávez considerando-o democrata porque aplica as leis de seu país contra instituições que existem exatamente para salvaguardar a Democracia.

Nem toda lei é democrática ou imbuída de tais predicados. Se assim fosse as arbitrariedades da Ditadura, baseadas na lei em vigor à época — no AI 5, por exemplo — também foram democráticas. Se as coisas forem colocadas assim simploriamente, não há outra conclusão possível, por mais boa vontade que se tenha.



Escrito por Ilton: às 13:51
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O VENTO DO INVERNO MISTURA AS IDÉIAS

Quando estou em Porto Alegre, tenho sempre uma, pelo menos uma, televisão ligada à minha frente, enquanto digito textos. Já ocorreu, não apenas uma vez, de alguém na casa me indagar sobre algum diálogo ou afirmativa de algum entrevistado e eu não saber responder, por falta de atenção.

No inverno, quando acendia a lareira, várias vezes me flagrei com o notebook no colo, já no protetor de tela, a televisão ligada mais à frente e eu hipnoticamente concentrado apreciando o fogo. A encenação teatral que o fogo faz no palco da minha lareira é muito mais artística e criativa do que os programas da televisão, qualquer que seja.

O problema é que sem um barulho constante não consigo me concentrar. O silêncio tem efeito dispersivo. Particularmente, pois não sou amante da televisão, acho que há coisas melhores a fazer do que perder tempo na frente de uma tevê. Interessa-me apenas o som que me ajuda na concentração.

Aqui em Rio do Sul livrei-me um pouco da tevê. Mas não muito. Ela está ligada, agora, no Bom Dia Brasil, mas não presto muita atenção. Somente quando alguma coisa me chama a atenção. Agora, por exemplo, pela terceira vez a apresentadora anuncia que transmitirão diretamente de Fernando de Noronha a decolagem de um helicóptero de resgate que vai ao encontro da fragata Constituição buscar cadáveres do acidente da Air France.

Na primeira vez a moça anunciou que naquele exato momento os helicópteros estavam tendo as hélices ligadas (foi exatamente assim que ela disse), a câmera se desviou para os aparelhos, mas os hélices permaneceram inertes. Acho que o piloto está de sacanagem com a Globo. Depois mais uma chamada. Agora a terceira. Estou muito dispersivo hoje. Finalmente a moça anuncia que os bléki uókis – a pronúncia é dela – vão levantar voo. Assim todos os que assistiram ao noticiário da manhã na Globo puderam ver, com absoluta exclusividade, um helicóptero decolando...

Se o este texto apresentar incongruências, desculpem.

É que durante a digitação, que levou toda a manhã e foi concluída após eu ter desligado a tevê, fui diversas vezes interrompido pelo sentido da audição que, frequentemente, desviava minha atenção para as caixas de som que propagavam a música exuberante da Grande Missa em dó menor, KV 427 (417a), de Wolfgang Amadeus Mozart, com as sopranos Barbara Hendricks e Janet Perry, o tenor Peter Schreier, o baixo Benjamin Luxon, o Coro Singverein de Viena (maestro Helmuth Froschauer), o organista David Bell e a Orquestra Filarmônica de Berlim conduzida por Herbert Von Karajan, numa primorosa gravação de 1982 da Deutsche Grammophon.

Quer mais? Então ligue sua FM predileta que você ouvirá, sem dúvida nenhuma, os gritos esganiçados de alguma dupla sertaneja brasileira cantando algo como cala a boca e me dá um beijo ou algo muito semelhante.

Ou então acesse o Youtube e busque por Susan Boyle e encontrará uma escocesa feia, sem talento e grosseira, com cara de buldogue, cantando sofrivelmente uma música merecedora daquela exata interpretação.

Você poderá se considerar por cima da onda porque ela está sendo, mas quase indo e já vai tarde, uma celebridade. Bem feito!



Escrito por Ilton: às 16:19
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BERLUSCONI NA MÍDIA

O premier italiano Silvio Berlusconi foi flagrado em sua mansão, na Sardenha, pelo jornal El País, da Espanha, numa orgia, ou num inocente exercício de naturismo, não se sabe ao certo nem interessou ao jornal indagar e informar à opinião pública. Na foto aparecem mulheres nuas da cintura para cima e um homem pelado da cintura para cima e da cintura para baixo, se é que interessa.

Muito coincidentemente o flagra ocorreu no último dia da campanha eleitoral da Itália. Nada proposital, pois o jornal, que se imagina respeitável, estoicamente justifica a divulgação porque ela atenderia ao interesse público. Um periódico espanhol defendendo o interesse público italiano. Jornal também tem interesse público, ou em público, ou no público, naturalmente.

Segundo editorial, transcrito em parte no Jornal de Santa Catarina, de 06/06/2009, página 14:

Não é uma tentativa de julgar sua moral como cidadão, mas de demonstrar que, como primeiro-ministro, ele está tentando transformar a arena democrática em uma mera extensão de suas amizades e seus entretenimentos. (...) Há razões para advertir que o premiê está colocando em jogo o futuro da Itália como Estado de direito.

Quanto malabarismo para justificar uma cagada internacional! O pior é que tem gente que acredita nessa falácia que nem os editorialistas devem acreditar.

Se uma turma pelada na mansão do primeiro-ministro coloca em risco o futuro do Estado italiano pelo simples fato de estar pelada, celebrando ou não alguma coisa, está na hora de dizer adeus à terrinha de meus antepassados e de muitos oriundos (já vou vacinando: minhas origens são trentinas e não italianas). Se um Estado não resiste a uma festinha como essa, ainda que fosse uma surubazinha básica, ou sucumbe ou se transforma num Brasil, que é definitivamente uma zona politicamente estabelecida e consagrada como zona. Sem maiores riscos de que o de assimilar todo o tipo de bandalheira com naturalidade e estoicismo.

Berlusconi é um Lula mais desenvolto e instruído. Venceu na vida trabalhando. Lula é ocioso por natureza. Num e-mail que percorre a internet (chegou a mim através do Dogman), foi flagrado mijando numa pedra, mas a foto não repercutiu. Cada chefe de Estado tem a imprensa que merece, ainda que de outro país. Ademais, quem se interessaria em publicar uma foto de Lula mijando? Isto é pinto (ops!) perto da peladagem na mansão de Berlusconi.

Não gosto dele (estou falando de Berlusconi, embora o mesmo se aplique a Lula). Ele é prepotente e muito brasiliano para o meu gosto. Já se envolveu em outras confusões. Sua mulher pediu (ou vai pedir) o divórcio em razão do envolvimento dele com uma modelo de 18 anos, incidente amplamente divulgado pela imprensa mundial há algum tempo. Deve ter sido por interesse público.

Há duas cenas no Youtube de extremo mau gosto que depõem contra ele (ressalvo a possibilidade de que sejam montagens, mas não o faço com muita veemência para não estragar o post. Interesse público do blogue). Numa ele simula ato sexual, em plena via pública, com uma guarda-de-trânsito (ao que parece). Nada que possa comprometê-lo, pois o assédio sexual (se é que foi) é coisa de americano e não pega em países como o Brasil e a Itália. Não dá interesse público!

Já o outro flagrante, este sim, é francamente deletério. Berlusconi foi flagrado, através de uma cabine de vidro, enfiando o dedo no nariz, tirando uma caca, enrolando-a entre o indicador e o polegar e a saboreando com um cafezinho...

Isto sim é obscenidade! Um chefe de estado que se preze não tira tatu do nariz e engole. Pelo menos não em local público.

Nem Lula faria isto... 



Escrito por Ilton: às 15:15
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O "SHOW" CONTINUA

O post anterior abordou aquilo que chamei de busca mórbida do sensacionalismo de nossa Imprensa em relação a catástrofes e acidentes, especificamente em razão da queda do Airbus da Air France que decolou no Rio de Janeiro rumo a Paris na noite de domingo.

O Cesar Valente, em seu blogue De Olho na Capital abordou o mesmo assunto, sob o título Curiosidade Mórbida, mas sob a perspectiva da Imprensa, já que ele é jornalista experiente a acostumado a lidar com este tipo de perspectiva.

Sugiro a leitura. Vale à pena.

Talvez você conclua, como eu, que se deve partilhar a responsabilidade pelas coisas feias que ocorrem nessas ocasiões entre a curiosidade popular e os anseios, pelo menos financeiros, das empresas jornalísticas.  

O artigo não contradiz o que foi dito por mim, apenas foca a matéria sob outro prisma e com isto traz complementações importantes e esclarecedoras. Afinal, sou mero espectador e o Cesar é especialista e está lá. Tanto que deixei nos comentários um Obrigadão.

Pois o show continua.

Hoje a Record News entrevistou um advogado que vociferava, indignado, pela falta de informações. Sua Excelência reclamava porque não podia entrar com um inventário, pois não se sabe se há pessoas mortas, se estão perdidas num barquinho, em alto mar, ou em alguma ilha...

O prazo para o ingresso de processo de inventário só começa a correr após a prova da morte do autor da herança e é de sessenta dias, portanto bastante razoável. A lei é, muitas vezes, mais sábia que advogados, juízes e promotores. Em todos os casos, duvido que haja algum sucessor, nestas alturas, pensando em discutir a herança de um ente querido que sequer se pode dizer ausente embora, sem dúvida, haja parentes de olho concupiscente numa bela indenização por dano moral.

Começam também a entrar em cena – estava demorando – políticos populistas ávidos por dividendos eleitorais à custa de afirmações no mínimo inoportunas: Governador do RJ responsabiliza Air France e Airbus por acidente.

Chamou-me a atenção, no artigo do Cesar, ele atribuir essa tendência da Imprensa à natureza do brasileiro, pois, segundo disse, as vendas do Diarinho crescem quando há foto de cadáver na capa. Os leitores reclamam, escrevem cartas, mandam e-mails, quando o jornal fica muito tempo sem mostrar esse tipo de coisa. O Diarinho é o melhor jornal do Sul do Mundo, editado em Itajaí, e o Cesar mantém uma coluna diária nele.

Lembrei-me de O Pasquim, aquele bom, dos velhos tempos. De vez em quando eles colocavam uma mulher nua, tanto quanto era permitido pela censura da época, na capa. Certa vez, questionados, esclareceram que as vendas do jornal subiam sensivelmente nessas ocasiões.

É triste constatar nossa involução, neste campo. Antigamente os jornais se valiam de fotos provocantes de melhores bonitas para vender mais. Hoje colocam cadáveres, preferencialmente em poses escabrosas e banhados em sangue, com uma faca enfincada nas partes moles...



Escrito por Ilton: às 22:51
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O CIRCO ARMADO DE NOVO

O circo armado de novo. A Imprensa brasileira mais uma vez acentua seus maus hábitos especulativos e seus exercícios de projeção futura sobre um fato já ocorrido. Percebe-se nitidamente a má vontade com estipulações legais que supostamente – para usar um termo do meio – tolhem a atividade jornalística. A principal insurgência é contra o fato de a Air France não divulgar a lista dos passageiros antes de contatar todos os familiares.

A legislação francesa proíbe as empresas de fazerem tal divulgação para preservar a intimidade e a privacidade dos familiares. Caberá a estes, no seu livre arbítrio, divulgar, depois, se quiserem, a nominata de seus mortos.

É um excelente enfoque. Uma forma respeitosa de tratar a dor alheia e de considerá-la como tal. Ninguém precisa ter o nome e a foto de parentes mortos divulgados – como fizeram Zero Hora de 02/06/2009 e o Jornal Nacional com os passageiros que identificaram – para ter mais conforto ou mitigar seu sofrimento.

Os absurdos se repetem, como em outras ocasiões. Ontem, por volta das 14,15 horas, no programa Direto da Redação, da Record News, ouvi um diálogo interessante entre a apresentadora Janine Borba e o repórter Mauro Tagliaferri, que falava de Paris.

A apresentadora indagou se os parentes não estavam inconformados e precisando da Imprensa – precisando foi exatamente o termo usado – para obter informações. Ele, talvez não percebendo a intenção oculta da pergunta, respondeu que, ao contrário, as pessoas evitavam a Imprensa – evitavam foi exatamente o termo usado –, estavam acomodadas num hotel a expensas da Air France aguardando o desenvolvimento das buscas e obtendo as informações disponíveis.

Dói ver o nível de especulação sobre o acidente, numa mecânica que só serve para chamar a atenção, sem preocupação com o bom senso. Talvez a culpa seja nossa, acostumados a enfrentar esse tipo de acontecimento privilegiando o mórbido e espancando o humano.

Esses dias, na entrevista coletiva da representante da Air France no Brasil, Isabel Birem, um repórter a questionou sobre por que a empresa comunicou que o avião decolou no Rio de Janeiro às 19,30 horas enquanto a Infraero afirmava que a decolagem ocorreu às 19,10... Pode?

A revelação da ignorância é maior do que a qualidade das informações passadas. Numa entrevista com um especialista uma repórter – infelizmente não anotei o nome nem o programa nem a emissora – não só demonstrou surpresa quando lhe foi assegurado que um avião não atrai raios nem sofre danos graves com eles como iniciou uma logo abandonada escalada de questionamento. Ouvi, também, em outro programa, alguém perguntar sobre se o avião é dotado de para-raio...

Outro repórter especulou sobre se o piloto não deveria ter retornado ao saber da possibilidade de enfrentar turbulência, como medida de segurança. Outro, ainda, se o piloto precisava apertar algum botão para o sistema do avião enviar uma mensagem automática (referindo-se à que foi recebida no Brasil por volta das 23,14 horas, dando conta da pane elétrica).

Circunstâncias minimamente estranhas são elevadas à categoria de grandes mistérios suspeitos, como se todos tivessem a preocupação maior de esconder dados e informações por mero exercício de arrogância ou indiferença.

Na verdade, analisando qualquer acidente ou incidente com olhos demasiadamente críticos, fatalmente encontraremos detalhes que podem permitir a sensação da ocorrência de fatos estranhos. Nem tudo é previsível, pois se o fosse acidentes como esse não ocorreriam. O que não significa, obviamente, que os envolvidos, ou alguns deles, tenham agido necessariamente de má fé.

Não gosto desse tipo de Imprensa. Não saio reconfortado de noticiosos que mais parecem ensaios sobre a morbidez. Preferiria alguma coisa mais técnica, menos especulativa e, definitivamente, mais séria. Mas talvez não seja esta a intenção.



Escrito por Ilton: às 06:59
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RESCALDO DO PROCESSO DE LHS

Como todos os que leem o De Olho na Capital e o Minhoca na Cabeça, além de outros órgãos de comunicação menos cotados, sabem, o governador Luiz Henrique da Silveira, de Santa Catarina, foi absolvido no TSE, sexta-feira última, no processo eleitoral em que foi acusado de abuso de poder econômico e político pela Coligação Salve Santa Catarina que apoiou Espiridião Amin nas eleições de outubro/novembro de 2006.

Pelo que li, e não foi muita coisa, o ministro Félix Fischer, relator, cujo voto foi o condutor da absolvição – cinco ministros aderiram a ele e apenas um, o presidente Carlos Ayres Britto, votou pela cassação do mandato – fundamentou seu voto essencialmente na insuficiência de provas de abuso e de comprometimento do processo democrático. O site do TSE traz resumo da fundamentação (aqui).

O instituto da insuficiência de provas é o mais utilizado na absolvição de réus em processo crime e é uma porta larga para acomodação de decisões e adequação da vontade absolutória. Interpretações extremadas consideram que qualquer dúvida, mínima que seja, ainda que não comprometa o enunciado do iter criminis e da tipificação, é motivo suficiente à absolvição. Num processo crime, sem muito esforço, o juiz jeitoso encontrará centenas de circunstâncias que justifiquem a absolvição para, assim, mais acomodadamente, encerrar o processo absolvendo o réu.

Não se diz que é o que ocorreu no caso, até por desconhecimento de causa. Nem interessa ao post, pois a abordagem é sobre outra circunstância do julgamento.

A decisão foi justa? Não sei. Impossível dizer-se. A insuficiência de provas móvel da absolvição não significa, objetivamente, que abusos não foram praticados pelo governador LHS; apenas que não houve prova suficiente a justificar a cassação. Então, tais abusos podem ter ocorrido. Ou não.

Mas injustiça, sem dúvida, houve, embora não se possa identificar com precisão, o injustiçado, e a injustiça emergiria qualquer que fosse o resultado. Nesse caso, jamais a decisão poderia ser justa e não o foi porque, objetivamente, diante do resultado, foi o próprio governador Luiz Henrique a maior vítima do processo: passou dois anos e cinco meses de seu mandato amargando a possibilidade de perdê-lo e sofrendo desgastes que, certamente, prejudicaram em algum ponto sua administração.

Entretanto se a decisão fosse pela cassação, o prejudicado seria o candidato colocado em segundo lugar, Esperidião Amin, que substituiria o cassado. Mesmo que assumisse agora, a injustiça já estaria consolidada. Ele teria perdido dois anos e cinco meses de gestão e até adequar secretarias e assessoria e deixá-las afinadas levaria uns seis meses. Logo, restar-lhe-ia praticamente apenas um ano de governança.

Nestes casos a decisão será sempre injusta. Se a eleição foi vencida mediante fraude ou abuso, o eleito sequer poderia tomar posse, pena de se estar abençoando a ilicitude e dando-lhe forças de criar ato jurídico ou político. A decisão não produz efeitos retroativos. Logo, o mandato teria sido exercido ilegalmente.

O tempo é inexorável e relativo. O que passou não pode ser recuperado. Dois anos e meio perante a Eternidade é nada. Dois anos e meio perante um século é pouco. Mas dois anos e meio perante um mandato de quatro anos é muito. Representa mais da metade do tempo...

Foi esse o tempo que levou a Justiça Eleitoral para julgar o caso. Um prazo excessivo, mormente se for considerado que ela é extremamente especializada e que é relativamente pequeno, muito pequeno, o número de ações de sua competência.



Escrito por Ilton: às 16:37
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