RICO RI À TOA DA JUSTIÇA

A maioria dos ricos quando é flagrada em delito vai para o hospital. Os poderosos são muitos frágeis. Furto, estelionato, homicídio são coisas que não fazem para consumo externo. Eles têm um conceito diverso de delito e acham que podem cometê-los porque são estudados, conhecem o Poder e as leis e consideram que crime, de verdade, é coisa de pobre.
Eles sempre têm uma desculpa na ponta da língua e seus advogados são astutos como o Chapolin Colorado, se é que me entendem: suas obviedades são tão óbvias que é mais fácil acreditar nelas do que discuti-las.
Rico mata (vide Pimenta da Veiga), reconhece que matou, mas entende que não merece punição porque o fato ocorreu num momento de abalo psíquico até então nunca surgido. Além de frágeis psicologicamente, são muito doentes. Não sei por que a vida média deles é maior que a dos pobres, se eles padecem de muito mais doenças que estes.
O juiz Lalau é exemplar nessa artimanha que, aliás, não é privilégio nosso (basta lembrar Pinochet). É o padrinho e o decano dessa estratégia de rir à toa da Justiça e fazer pouco do povo. Basta vislumbrar a possibilidade de revogação de sua prisão domiciliar para despencar gravemente enfermo (se prisão domiciliar, com direito a tevê, computador, mulher, música, comida boa, é pena, então posso cometer uns quatro ou cinco delitos que já a cumpri antecipadamente. Vivo em prisão semi-domiciliar e com medo. Não tenho, como ele, guardas na minha porta para evitar que seja assaltado. Quer dizer, minha situação é ainda pior).
E o Paulo Maluf? Esse, salvo engano, foi o rico que bateu o recorde de prisão temporária: cinco dias. Em cela especial, com direito a tevê e comida própria para si e para os outros presos. Os ricos, nessas ocasiões, se tornam altruístas para comover juízes, carcereiros e o povo em geral.
O Maradona está de novo na UTI. Por descompensação alimentar e excesso de tabaco e cerveja. Nada de cocaína! Ele esteve em Cuba e se curou. Deveria permanecer lá. Ainda estaria bom. A droga maior sempre absorve a menor e Cuba é uma droga incomensurável.
O rabino Henri Sobel, flagrado nos States furtando gravatas de grife, mostra que o crime não é privilégio de padres pedófilos-carentes-sexuais nem de macumbeiros pobres que catam caveiras nos cemitérios para suas magias. Rabinos, de quem pouco se fala mal, mesmo que tenham agido mal como parece (o parece é vacina, porque o Holocausto provocou o temor reverencial que faz crer que qualquer coisa que se diga um judeu é anti-semitismo), mostra que nem mesmo um rabino resiste às tentações mundanas.
Ele foi internado devido a episódio de transtorno de humor, representado por descontrole emocional e alterações de comportamento.
Transtornos de humor me acometem constantemente. É só pensar no PT e nas paspalhices de seus meninos aloprados. Mas nem por isto saio por aí atirando em petistas.
Em suma: atualmente, pobre, quando comete um crime, vai para a cadeia; rico, para o hospital...
É preciso uma alteração profunda no sistema penal pátrio, para estabelecer o equilíbrio entre ricos e pobres no momento da prisão, e por isto proponho que esta somente ocorrerá na presença de um defensor público e de um médico pago pelo Estado que ateste o estado mental do pobre no momento do crime.
Isto solucionará, em parte, o problema de superlotação dos presídios e permitirá que somente condenados permaneçam presos.
Talvez a medida superlote os superlotados hospitais. É o preço que se paga pela modernização. Além disso, há a considerar que a alteração, além de fixar adequadamente o princípio da eqüitatividade, isto é, da igualdade de todos perante a lei, representaria uma mudança significativa que aplacaria, em parte, a ávida busca de mudanças por nossa sociedade. Mesmo que seja apenas para deslocar problemas de um setor para outro.
Escrito por Ilton: às 21:19
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O APAGÃO AÉREO DO LULA
Como todos sabem, Lula, o estradista, que 61% dos brasileiros acreditam ser o presidente do Brasil, tem um staff secreto em quem confia cegamente, constituído de cinco assessores mais aprochegados que convoca para reuniões em que se discutem assuntos mais graves. Foi ele quem definiu as estratégias do Fome Zero, do Primeiro Emprego e de outros programas que também não deram certo. O único que decolou, literalmente, foi o da compra do Aerolula. E, também, o da reeleição, para aqueles que acreditam que ele foi efetivamente reeleito.
Depois da crise do mensalão que não existiu, dos ministros que caíram sem causa, sua composição alterou-se, mas nada tão substancial que pudesse trazer algum proveito para o Brasil.
Após o primeiro apagão aéreo, há seis meses, antes de uma trivial viagem aérea para o Exterior – se não me engano para o Uruguai – ele convocou uma reunião e pediu providências urgentes. Houve novas crises, todo mundo sabe, e ele continuou cobrando providências, sempre urgentes. Busca-se um responsável, que está longe de ser ele, que não acredita possa ser culpado de algo quando há outrem disponível a quem imputar a culpa.
Escrito por Ilton: às 19:35
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Dia 27/03/2007, após mais um descalabro de atrasos de vôos por este Brasil afora, ele não agüentou e reuniu o staff para discutir a relação. Estava mais sério que o normal e seus abnegados companheiros mantiveram um inicial silencioso respeito até que ele esbravejou:
— Não dá mais pra dizer pra sociedade brasileira que não tem problema. Não tem mais o que esperar. (...) Feito o diagnóstico, quem tiver que assumir a culpa, que assuma, por isso chamei todo mundo. Não quero saber quanto mais vai custar e o que vai ter de fazer. Não dá mais, o povo brasileiro tem paciência demais e o problema pega todas as camadas. Eu também ando de avião.
(Estou surpreso! Essas palavras vazaram e foram publicadas no jornal Zero Hora do dia 28, página 4. Acho que minha fonte exclusiva junto ao staff secreto não é mais tão exclusiva nem confiável).
Todos se olharam perplexos pelo pronunciamento do companheiro chefe. Principalmente porque ele afirmou que o povo brasileiro tem paciência demais. Mas também porque ele referiu que também anda de avião.
A companheira Di, muito expedita, ousou levantar a questão:
— Companheiro! A gente não empenhou muito porque sabe que o companheiro anda de avião, mas nunca sofreu atrasos, pois o Aerolula tem preferência nos pousos e decolagens nos aeroportos de todo o Brasil.
— Minha querida companheira. Seja objetiva: eu ando ou não ando de avião?
— Claro que sim, companheiro, acabei de dizer. Só que o companheiro está imune a esses problemas de espera, atrasos, etc.
— Isto não quer dizer nada, querida companheira. O importante é que ando de avião. Essa é a verdade que deve ser priorizada, sabe. Foi com base nessa estratégia de dizer verdades, sabe, por metade que construí a minha campanha eleitoral. E qual foi o resultado?
— É! Sob essa ótica o senhor está certo.
— Sob essa ótica e sob todas as outras também. Não fui reeleito Presidente da República? Fui! Só tem um cara aí, que escreve um blogue esperneando, que não acredita. Mas nem estou sabendo disto.
Após uma pausa não estudada porque ele nunca foi de estudar muito:
— Eu quero um fim nesse apagão todo. Tá na hora de resolver esta questão. Quero hora e dia para isso terminar, sabe, não agüento mais essa imprensa todo o dia noticiando a mesma coisa. Eu estou de saco cheio.
— Vamos, então, fixar a data – propôs o Né.
— Vamos! – concordaram todos.
— Alguém tem alguma idéia? – indagou o Ta.
Ninguém tinha, até porque foram pegos de surpresa pela inesperada Ordem do Dia. O staff secreto nunca trata de assuntos sérios.
— Sugiro, companheiro, que cada um de nós analise a questão e depois a gente convoca uma reunião do para definir a data do fim do apagão.
— É isso aí, companheira. Agora gostei de sua objetividade. Vamos encerrar aqui. Assim que houver o próximo apagão, desde que eu esteja no Brasil, é claro, vamos fazer uma nova reunião para definir a data do fim do apagão.
Depois do coquetel de encerramento, todos foram para casa com a consciência tranqüila, cada qual do seu modo.
Escrito por Ilton: às 19:34
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JÁ FUI FASHION E VOLTAREI A SÊ-LO...

Já escrevi aqui, e não apenas uma vez, que tenho uma dessintonia crônica com a História. Sempre estive fora da linha da normalidade social – não em todos os sentidos, claro – quer por ser muito jovem, quer por ser muito antigo.
Agora, de novo, lendo um artigo da Veja, percebo que já andei na moda, pelo menos duas ou três vezes, mas numa época em que aquele jeito não era moda. Já fui fashion sem ser fashion por uma questão temporal.
Ganhei o primeiro terno quando fiz a primeira comunhão, aos 9 anos. Feito sob medida, ficou beleza. Era azul-marinho e tenho uma foto em preto-e-branco da ocasião. Estava até de sapatos. Naquele tempo era costume bater uma foto pelo menos nessa solenidade.
Aos dez anos eu havia espichado naturalmente um pouco. O terno, também naturalmente, não. Mesmo assim o usei uma duas ou três vezes antes que fosse repassado a meu irmão.
Então as calças estavam à meia-canela – como se dizia – as mangas do paletó deixavam aparecer grande parte da camisa de baixo e os botões da frente receberam reforço para não caírem numa suspirada mais funda.
Pois foi exatamente nessa época que andei na moda, que fui fashion. Desconfortavelmente fashion porque, se vestir terno já é um incômodo, imaginem um terno apertado e curto.
Pois a matéria da Veja do dia 28/03/2007, coluna Estilo, páginas 90/91, diz que após anos sem grandes inovações, o traje masculino ganhou novas formas, mais justas de cima a baixo.
No paletó, as mangas ficaram mais coladas e mais curtas (o punho da camisa pode ser vislumbrado mesmo com o braço esticado), a cintura mais marcada, o comprimento encurtado. A calça ganhou cintura mais baixa, um corte que acompanha o desenho dos quadris, nádegas e joelhos e, nos mais ousados, se afunila até o tornozelo, deixando um pedacinho à mostra.
Esse negócio de cintura mais baixa, imagino, seja para adaptar aos homens o mesmo que os estilistas fizeram com as mulheres: criar duas cinturas, a natural e outra que vai se formando com o uso de roupas que apertam um pouco mais para baixo, quase à meia-bunda, e que marca tanto que se tem a impressão que muitas mulheres têm duas. Duas cinturas, óbvio, não duas bundas. Ao menos não de duas bandas cada.
(Para reduzir ainda mais as diferenças, sugiro que desenhem a camisa de baixo mais curta, para que os homens possam mostrar também seus umbigos na abertura inferior do paletó, disfarçadamente sob a gravata).
Hoje não uso ternos. Mas tenho alguns guardados, dos anos de magistratura, que se adequariam à nova moda, com encurtamento nas mangas e nas calças, pois não cresci, pelo contrário, encolhi. Nos diâmetros nada a modificar: nos braços e no abdômen o paletó ficaria devidamente esticado e a calça teria que ser usada abaixo da cintura, caso contrário não conseguiria fechá-la.
Ainda bem que guardo essas roupas. Na próxima vez que for para meu sítio, em Taió, poderei usá-las e estar na moda em pleno Passo Manso.
Os colonos – estou falando de colonos, não de agricultores – do interior de Taió, quer por carência financeira, quer por não darem bola a modismos, estão sempre na moda. Muitos só compram ternos para o dia do casamento e o usam pela vida afora. E precisa mais?
Estarei, então como eles. O que é melhor, poderei andar nos banhados descalço, mas com um terno da moda, sem o risco de sujar as calças. E até auxiliá-los em trabalhos mais prosaicos como, por exemplo, pegar porco em banhado. Para isto, esta moda serve...
Escrito por Ilton: às 12:29
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NÃO SOU MESMO CONFIÁVEL. INSTALEI O WINDOWS VISTA!

No dia 01/02/2007 lancei um boicote nacional contra o Windows Vista exortando meus leitores a espalhar a idéia de que o XP, o 98 e o ME são melhores e que a mudança só trará despesas, incômodos na instalação e instabilidade no sistema.
Muito lealmente, antecipei que não participaria boicote, pois não confio em mim mesmo: Mais dia menos dia numa loja de informática acabarei adquirindo o Vista. Serei miseravelmente traído pela chamada atração por repulsa. Afinal, é em cima disto que a Microsoft trabalha: daqui a uns tempos não se encontrarão mais softwares que rodem no XP e ela encerrará as atualizações desse sistema, como fez com o ME recentemente, deixando-o capenga. O bom de ontem é o lixo de hoje.
Pois é. Estou com o Vista Business instalado e funcionando no notebook. Não sei dizer se ele funciona perfeitamente, porque o instalei recentemente e estou ainda brincando com ele, embora não tenha condições de fazer muito mais do que isto com ele.
Ainda não apareceu nenhuma daquelas mensagens chatas de que o programa parou de responder, solicitando o envio do relatório de erros para a Microsoft, comuníssimas no XP. Sempre os enviei ao menos para encher o saco dos carinhas, lá. Acho que, por estas e outras, a Microsoft solertemente retirou esta rotina do Vista.
Ele permite colocar na área de trabalho os gadgets – mais um estrangeirismo que teremos que engolir – para vários fins. Eu colei dois relógios, com as horas do Brasil e da Alemanha, onde está meu filho e dois medidores de temperatura. No momento em que escrevo, por exemplo, a temperatura em Karlsruhe está em 14º e o céu está limpo. Em Porto Alegre o serviço está... indisponível (esses brasileiros!). Mas pela janela tenho a privilegiada vista de um dia ensolarado, com uma brisa suave e temperatura em torno de 22º.
Ele é mais lento para inicializar. Sem problema. Uso uma rotina muito eficiente: levanto de manhã, ligo o micro, faço a toalete, tomo o café e ao voltar ele está quase pronto. Então posso trabalhar normalmente.
Ele é educadíssimo. Quando entrei no Painel de Controle e cliquei para desinstalar o Picasa – vem embutido nele um programa idêntico, fruto da extrema eficiência da Microsoft em piratear – ele, solicitamente, informou que precisava de minha permissão para continuar.
Para desligar ele também é lento. Mas é só usar a rotina da manhã, com as devidas adaptações, e pronto. Não gostei muito de um círculo girando ao lado do ponteiro mouse e que substitui a antiga ampulheta. Parece que está me mandando tomar naquele lugar.
Pelo menos ele desliga apenas com um comando. O XP do micro de mesa, ao contrário, é teimoso. São precisos dois comandos para ele desligar.
Mas há algo que me desagrada profundamente. Ele é partidário, o que não combina com meu ideário. Sou apolítico. O fato de ter ojeriza do PT não significa que eu seja do PSDB ou do PFL. Não tenho partido.
Pois o Windows Vista, tanto na inicialização quanto no encerramento apresenta dois iconezinhos na parte inferior esquerda da tela. Num deles há o símbolo de um teclado. No outro simplesmente a sigla “PT”.
Mr. Gates não precisava ser tão puxa-saco só porque há um estudo para dotar a Informática governamental com um sistema livre.
Se ficar nisso, ainda vou tolerar. Mas é só aparecer algo mais saliente – como um fundo branco com uma estrela vermelha, por exemplo – que instalarei o Linux em todos os dois micros que possuo.
Escrito por Ilton: às 19:16
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FELIZ ANIVERSÁRIO, PORTO ALEGRE!

Porto Alegre está completando 235 anos hoje.
A falta de criatividade me faz postar a poesia abaixo, de Mário Quintana, que cantou como ninguém esta cidade que amou tanto.
O Mapa
Olho o mapa da cidade Como quem examinasse A anatomia de um corpo... (É nem que fosse meu corpo!) Sinto uma dor esquisita Das ruas de Porto Alegre Onde jamais passarei... Há tanta esquina esquisita Tanta nuança de paredes Há tanta moça bonita Nas ruas que não andei (E há uma rua encantada Que nem em sonhos sonhei...) Quando eu for, um dia desses, Poeira ou folha levada No vento da madrugada, Serei um pouco do nada Invisível, delicioso Que faz com que o teu ar Pareça mais um olhar Suave mistério amoroso Cidade de meu andar (Deste já tão longo andar!) E talvez de meu repouso...
Se você quiser ouvir e ver a homenagem que o grupo Zaffari/Bourbon fez à cidade, clique aqui.
É apenas uma música, mas muito agradável. Em termos de MPB – se é que podemos considerá-la como tal – é uma das melhores compostas nos últimos tempos.
Como não sei colocar sons ou vídeos no blogue, lamento fazê-lo ingressar em outro site. Principalmente porque há uma dessincronia entre as imagens e o som: este termina bem antes.
No original isto não ocorre. Nem, evidentemente, na publicidade televisiva.
Infelizmente, no site do Zafari/Bourbon não há créditos sobre o(s) compositor(es) nem sobre a intérprete, que alguns dizem ser a esposa do atual Prefeito Municipal, José Fogaça.
Escrito por Ilton: às 14:34
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HOJE É DOMINGO,
dia da preguiça, em que geralmente recupero alguma crônica antiga no blogue.
Hoje não. Hoje estou postando a crônica O Desembargador, do cronista David Coimbra, que a publicou no jornal Zero Hora de 23/03/2007, página 3.
E em seguida uma espécie de “carta aberta” em resposta à sua tese de planejamento do futuro de um filho, dele e da senhora Coimbra, que está para nascer.
Enviei-lhe, por uma questão de lealdade, por e-mail, cópia da carta.
Escrito por Ilton: às 23:51
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O DESEMBARGADOR, POR DAVID COIMBRA

Escrito por Ilton: às 23:44
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PREZADO CRONISTA DAVID COIMBRA:

Li sua crônica O Desembargador na qual, futuro pai extremoso, o senhor traça planos para a vida de seu filho nascituro (é bom se acostumar com termos jurídicos).
Sou desembargador aposentado e aprecio música erudita. Quando nasceu minha filha acalentei o sonho de que ela fosse pianista. Aos nove anos dei-lhe um piano, ela estudou três anos, chegou à idade em que as garotas preferem teclar o telefone e a carreira ficou para trás. No segundo grau decidiu fazer Direito e me desesperei. Tentei convencê-la a fazer Psiquiatria para cuidar do pai, depois de velho. Estava enlouquecendo com o fluxo irracional dos processos e a dificuldade de terminá-los.
Hoje ela é advogada e foi aprovada em concurso para Delegada de Polícia Federal. Para a saúde, falo por experiência própria, é melhor do que ser Juiz.
Meu filho é sete anos mais novo. Calejado pela experiência com ela não alimentei expectativas e incentivei-o a fazer o que gostasse. Em 2005 ele se formou em Música, especialização em Piano, na UFRGS, e em fevereiro último ingressou com nota máxima no curso de mestrado do Conservatório de Karlsruhe, Alemanha... Pois é!
Concordo, em parte, com o senhor. É grandioso o tratamento desembargador Câmara Coimbra que o senhor usará para seu filho. Mas a imponência decorre mais do Câmara Coimbra do que do desembargador. Presidente Câmara Coimbra, por exemplo, soa igualmente nobre, muito mais do que... Deixa pra lá! Além disto, é mais fácil ele ser nomeado professor honoris causa em universidade no Exterior por ser Presidente do que por ser Desembargador.
Temo que não conseguirá ler os livros de Sociologia, Direito, História e Filosofia que o senhor deseja. E perca a esperança de que ele escreva uma obra de 73 volumes como desembargador. Para ser desembargador é preciso antes ser Juiz, começar no interior, batalhar um bocado e ser incluído na linha de vocação hereditária da predileção dos demais desembargadores para obter promoções com celeridade.
Um juiz não tem tempo de ler muitos livros; ele terá que ler processos. Escrever uma obra fundamental, comparável a de Pontes de Miranda, é uma tarefa hercúlea. Ele estará muito ocupado em escrever despachos e sentenças. Pontes de Miranda foi juiz de órfãos num tempo em que havia poucos órfãos e depois desembargador do Tribunal de Apelação do Distrito Federal numa época em que havia poucas apelações. Por isto teve tempo de escrever e de se tornar um dos maiores juristas pátrios.
Desculpe a franqueza: seu filho, em algum momento, terá que escolher entre ser um bom doutrinador e um mau magistrado. Ou o contrário.
Notei que o senhor não refere compensação salarial. Ótimo. Juiz não deve pensar em dinheiro. Este é conseqüência do trabalho. Sempre pensei assim. Se o senhor quiser que ele seja rico, melhor planejar outra profissão. Advogado, talvez, para não sair do ramo do Direito.
Não estou dizendo que os desembargadores percebam vencimentos insignificantes. Pelo contrário. A gente ganha bem, em cotejo com a maioria dos brasileiros. Mas a continuar a tendência atual de achatamento dos ganhos do funcionalismo – nossos dirigentes não distinguem funcionário público de juiz – quando seu filho chegar à desembargadoria talvez seu título seja apenas honorífico e ele tenha que pagar para trabalhar (não se assuste; estou exagerando um pouco).
Em suma, apóio a primeira parte de seus planos: seu filho poderá ler sobre as ciências apontadas e escrever uma obra fundamental de Direito, comparável à de Pontes de Miranda. Mas não como desembargador. Lamento desapontá-lo. Como advogado, sim. E ele ganhará dinheiro e poderá, depois, comprar, digo, ser agraciado com alguma comenda.
E convenhamos: comendador Câmara Coimbra soa bem melhor do que desembargador Câmara Coimbra.
Um forte abraço.
Escrito por Ilton: às 23:36
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NOTA INICIAL
No dia 27/05/2006 o Cesar Valente postou a nota abaixo em sua coluna De Olho na Capital, em O Diarinho, o melhor jornal do Sul do Mundo. A “ferinha fingida que matou os pais” é a Suzane Von Riechtoffen, de quem a maioria deve recordar, e que na época obtivera habeas-corpus do STJ.
ESSE STJ... O Ministro Nilson Naves, do Superior Tribunal de Justiça mandou soltar aquela ferinha fingida que matou os pais. E, ainda por cima, recomenda que a vigilância policial que eventualmente for necessária, “seja feita de forma discreta e sem constrangê-la”. Como não li os autos, não consigo entender o que pode ter levado o Ministro Naves a ficar assim com tanta pena dessa assassina, a ponto de zelar pelo seu conforto e comodidade.
A nota reavivou uma tese muito particular que tenho a respeito e que lanço aqui, em mal e poucas traçadas linhas, para que alguém porventura interessado a aprofunde e a explore num curso de Doutorado ou Mestrado.
Sinto-me demasiadamente cansado e sem intenção de retomar estudos acadêmicos, de modo que ensejo a outrem a glória de abordar o tema e com ele fazer fama e fortuna. Ou apenas fama. Afinal, sou jubilado, isto é, aposentado, e indisposto a me desaperfeiçoar em qualquer tema.
A tese se chamaria, provisória e talvez um tanto inadequadamente, algo como
Escrito por Ilton: às 07:48
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"A SÍNDROME DA CARINHA BONITA"

Acho que o brasileiro, a imprensa em particular, e pelo jeito o Judiciário em mais particular ainda, gostam de ler notícias trágicas ou de apreciar casos quando há uma mulher envolvida. Mas tem que ser bonita. Se for feia, a matéria sai uma vez e olhe lá. Se for bonita, é repetida por vários dias.
Lembro de uma moça que foi fulminada por assaltantes, há uns anos, na saída de uma boate no Rio ou em São Paulo. Era muito bonita. Sua foto saiu estampada em todas as revistas de circulação no país, os noticiários de tevê se ocuparam muito mais do que normalmente. Mas caiu na vala do esquecimento.
Os primeiros acusados, se não me engano, depois foram inocentados e até hoje os verdadeiros assaltantes são foram identificados.
O caso da modelo Ângela Diniz, assassinada pelo Doca Street, é emblemático. O de Aida Curi é mais antigo, o que demonstra que essa tendência também é antiga. Eu era criança, mas lembro que minha mãe e minhas primas mais velhas comentavam sobre ele. Saiu uma fotonovela numa revista chamada Sétimo Céu que uma prima leu aos prantos. A revista foi emprestada a toda a vizinhança – naquele tempo era assim – mas não tive acesso a ela por uma sempre eficaz censura materna.
Há muitos outros casos, mas vamos ficar por aqui, porque o que interessa é a tese, em si.
A última Veja (21/03/2007) traz reportagem de Marcelo Bortoloti, Uma Vida Interrompida, sobre a modelo Bia Furtado que estava no interior de um ônibus incendiado por assaltantes no Rio. As chamas lhe provocaram queimaduras em 35% do corpo, principalmente no rosto, braços e mãos, e sua carreira foi interrompida de forma brutal. Ela passou por dez cirurgias mas é quase impossível que recupere a forma anterior.
Naquele ônibus estavam 28 pessoas. Sete morreram na hora, 14 foram internadas e duas morreram no hospital.
Quer dizer, de tantas vítimas sobreviventes a eleita para a matéria foi uma modelo de carinha bonita. Talvez pelo fato de ser modelo e ter sua carreira interrompida? Mas os outros feridos também devem ter profissão e passam dificuldades para exercê-las. O que não se sabe é se têm ou não carinha bonita!
Vou confessar aqui. Era muito mais agradável presidir uma audiência com uma advogada bonita do que com uma feia. Se você, homem, entrar num consultório médico, vai se sentir muito melhor se a recepcionista for graciosa e agradável. Às vezes até se esquece da doença, dá meia volta após bater um papinho com ela, e economiza uma consulta. Deve ser por isto que os médicos que conheço contratam recepcionistas feias. A viagem é melhor se você sentar no banco ao lado de uma mulher bonita.
Não estou criticando ninguém. Mas não há homem que não sinta alguma forma de carinho especial, ainda que sem segundas ou terceiras intenções, pelas moçoilas de carinhas bonitas. Do Bem ou do Mal.
Não é discriminação nem machismo. É um sentimento elevado pelo Belo como alguém se extasia diante de uma obra de arte. Está bem, esta justificativa é um tanto furada, mas então fiquem com Vinícius de Moraes que, mesmo não sendo juiz, sentenciou:
As feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental!
Escrito por Ilton: às 07:45
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NOTA FINAL
Garanto que se trata de coincidência que, aliás, vem bem a calhar porque retira do meu post a suspeição de que inspirado no chauvinismo, objetivo ou subjetivo.
Eu preparava a publicação do texto quando deparei, por acaso, com o resultado de um estudo da Universidade de Bath, na Grã-Bretanha, apresentado na Conferência Anual da Sociedade Britânica de Psicologia, e que concluiu que pessoas feias têm mais chances de serem condenadas por júris populares do que pessoas bonitas.
— Nosso estudo confirmou pesquisas anteriores sobre os efeitos das características dos réus, tais como a aparência física, nas decisões de júris. Os réus atraentes são, ao que parece, julgados de forma menos rígida do que os réus feios, afirmou a pesquisadora Sandie Taylor.
Mais: outra descoberta interessante foi que a etnia do réu ou do jurado não afetou o veredicto. Mas os réus negros e feios tiveram sentenças mais longas quando considerados culpados.
Então, a síndrome da carinha bonita não é privilégio dos brasileiros nem dos homens, mas de ambos os sexos. Leia a matéria, se quiser, aqui, para se aprofundar ainda mais nesta tese com a certeza de que sua vida, seja homem ou mulher, mudará significativamente.
Escrito por Ilton: às 07:42
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LULA NÃO ASSUSTA, MAS A MINISTRA DO STF SIM

Esses dias Lula disse que seus ministros ganham pouco, mas que ele, pessoalmente, se considera feliz com os R$ 8,9 mil que percebe porque é o torneiro mecânico mais bem pago do mundo.
Agora, indústrias do Canadá estão recrutando soldadores aqui no Rio Grande do Sul e pagarão salário mensal de R$ 25 mil para cada um.
Que pena! Duplamente: que pena!
Lula engana-se e engana. As grandes metalúrgicas internacionais remuneram os torneiros mecânicos – embora essa profissão esteja perdendo espaço pela automação no fabrico de peças – muito melhor do que ele pensa e quer fazer pensar.
Acostumado a raciocinar por baixo e considerando classe média alta quem ganha acima de R$ 6 mil, ou seja, pouco mais de U$ 2,8 mil, acha que seu salário de torneiro é grande coisa.
Como somos um país de pobres em que o salário-mínimo é de R$ 350,00 ele deve ter segundas intenções em pensar assim e, mais do que isto, em expor seu pensamento. Logo vem abril e ele está vacinando o trabalhador brasileiro: o salário mínimo não vai ser muito elevado para não estourar o caixa previdenciário e para acomodar a situação de Municípios que teriam que pagar mais do que arrecadam apenas para seus funcionários.
Sei. Estou me tornando chato por bater nesta tecla. Mas a afirmativa de Lula de que percebe salário de torneiro mecânico vem, mais uma vez, reforçar a minha tese de que ele não foi reeleito presidente da República. Ele continua sendo um torneiro mecânico bem remunerado – segundo ele – com direito a residir em palácios com todas as mordomias inerentes, ter seu próprio e luxuoso avião de graça e diariamente um estrado para demonstrar a qualificação do grande estradista que é.
No dia 19/08/2006 postei uma matéria com o título Juiz Maluco ou Inspirado?, que pode ser lida aqui (quase no final da página).
Esbravejei porque um juiz filipino foi exonerado de suas funções porque se inspirava em três duendes – Armand, Luis e Angel – para ver o futuro e julgar.
Afirmei que: se a realidade judicial filipina for tão feia como a daqui, é possível que eles tenham afastado seu melhor magistrado. Porque, para ser juiz hoje, no Brasil, tem-se que ser minimamente louco.
Pois a Veja de 21/03/2007, nas páginas 70/71, seção Gente, sob o título Susto em sessão do Supremo, diz que a ministra Cármen Lúcia Rocha, do STF, quebrou uma tradição de quase dois séculos e entrou no plenário de blazer e calça comprida.
Como sou meio apressado ao ler, imediatamente imaginei que ela entrara no plenário pilotando uma camioneta Blazer, mas não. O susto(?) foi porque usava calça comprida. Imaginem se... Deixa prá lá!
Nada demais! Calças compridas não deve ser privilégio dos ministros. Mas nunca entendi direito porque as desembargadoras e juízas podiam vestir trajes confortáveis enquanto nós, homens, éramos obrigados a vestir terno e gravata. Mas tudo bem. Agora, aposentado, dispensei esses trajes formais. Menos a gravata. Para manter a dignidade.
Mas a matéria da Veja não deixa de me preocupar quando afirma que a ministra é solteira e sem filhos, dispensa o carro oficial com motorista (dirige seu Golf ano 2001), lê processos enquanto caminha na esteira e costuma recitar versos para suas plantas.
Não fica bem para uma ministra do STF dirigir um Golf 2001...
Escrito por Ilton: às 22:56
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FIDEL, CHÁVEZ E ZÉ DIRCEU: UMA MALUQUÍSSIMA TRINDADE!

Não importa a ideologia política abraçada pelos Governos ou por nós. A luta é sempre pelo dinheiro e apenas na origem há alguma discrepância entre socialismo e capitalismo. Esses dias escrevi sobre a dicotomia entre ser socialista e ser capitalista e poderia se resumir numa frase: a diferença entre um e outro é que o socialista prefere o dinheiro fácil e sem risco de capital, apenas de ser eventualmente flagrado com ele nas cuecas ou em malas.
Li um excelente artigo de Leonardo Attuch na última página de IstoÉ Dinheiro de 21/03/2007 (amanhã!). E é com base nele que redijo este texto, pois se trata de algo que eu gostaria de ter pensado e não pensei. Até por desconhecimento de causa.
Todos sabem que recentemente Fidel Castro telefonou a Hugo Chávez criticando o uso da terra para o plantio de vegetais que não servissem à alimentação humana, pois seria à custa da pobreza que os poderosos continuariam a manter seu padrão de vida, dirigindo veículos com etanol extraído da cana-de-açúcar e do milho.
Fidel, sabe-se, é comunista e sempre defendeu o uso da terra, preferencialmente dos terrenos acidentados com algum paredón ao fundo. Chávez se diz um socialista do século XXI, prega uma doutrina que chama de bolivariana, não tem papas na cabeça nem idéias na língua. Não sei ao certo o que é, além de democraticamente ditatorial. E truculento e sem graça.
Bush visitou o Brasil e outros países da América do Sul para tratar do etanol e melhorar sua imagem interna. Chávez saiu na rabeira visitando países vizinhos sob o pretexto de pregar sua doutrina e alfinetando Bush – a única coisa que tem coragem de fazer.
Entretanto – sempre há um entretanto – segundo o articulista citado, há mais coisa por detrás dessa encenação do que pode sonhar a nossa – ou pelo menos a minha – vã crença. Ou descrença. É só seguir o raciocínio:
Fidel não governa mais Cuba. Sua morte poderá mudar os destinos do país. Há milhares de cubanos ricos vivendo em Miami dispostos a voltar à ilha, negociar a derrubada do embargo econômico e investir na produção do principal produto de Cuba: a cana-de-açúcar, de todos o melhor vegetal produtor do etanol.
Mas Cuba percebeu a jogada. Por isto, estiveram no Brasil técnicos do Instituto Cubano da Indústria da Cana-de-Açúcar participando de um encontro internacional e afirmaram que desejam quintuplicar sua produção até 2011. Queremos nos transformar em grandes exportadores mundiais e temos totais condições para isso – disse Mariangela Cordovés Herrera, pesquisadora do Instituto.
Então Fidel e Chávez estariam falando uma coisa e mirando outra para desarmar Bush e os cubanos de Miami? É o que parece. Adivinhem quem está trabalhando nos bastidores para a consecução desse objetivo?
Ele mesmo. O deputado cassado que jurou jamais abandonar a Política e que caminha melifluamente na noite das negociações internacionais tentando vender seu stalinismo: o injustiçado e empobrecido Zé Dirceu.
Sim. De acordo com o artigo de Leonardo Attuch é José Dirceu quem tenta convencer Chávez a aderir ao etanol, adicionando-o à pura gasolina venezuelana, permitindo-lhe exportar mais e sabotar os planos de Bush.
Se os venezuelanos acatarem o conselho de Dirceu, poderão fechar um bom acordo com os cubanos e terão ainda mais petróleo disponível para exportar. Se isso vier a ocorrer, Bush e seus sucessores continuarão tão dependentes dos inimigos quanto antes – conclui o articulista.
Os inimigos, no caso, são os terríveis ditadores islâmicos que tornam os EUA dependentes do combustível que usam nos seus veículos e cujos humores vêm se alterando após a crise com o Iraque.
Si non è vero, è bene trovato!
Escrito por Ilton: às 14:42
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DESCULPEM A FALHA DA COLUNA, HOJE!
Desculpem se não posto nada hoje.
Não há nada que me desanime mais do que dores na coluna lombar e elas me atacam de vez em quando, pelo menos uma vez por dia.
Há seis meses me submeto a acupuntura e vinha melhorando. Mas foi só levantar o piano de meu filho hoje, para juntar um livro que caiu atrás, e as dores lancinantes voltaram.
O Walter Del Picchia disse, certa vez, num comentário, que é muito eficiente postar-se, toda manhã, na posição de árabe orando. Isto alongaria os músculos das costas, fortalecendo-os e reduzindo as dores lombares.
O problema é que ele não esclareceu e nem sei calcular, aqui do meu recanto sem referenciais, a direção de Meca...
Desculpem e até amanhã, se Alá permitir!
Escrito por Ilton: às 16:13
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DISCRIMINAÇÃO E INCRIMINAÇÃO. ONDE VAMOS PARAR?
Vocês não acham que a vida está se tornando cada vez mais chata e restringida por imposições de toda ordem, sociais, morais, educacionais, médicas e até legais?
Estes dias estava tirando fotos na Praia de Ipanema. Em Porto Alegre há uma Praia de Ipanema, às margens do Guaíba, de água doce, suja e sem ondas. Mas é a nossa Praia de Ipanema.
Mas, voltando ao assunto, eu batia fotos e em determinado momento vi uma menina levar um tombo na areia. Não posso ver ninguém cair. Acho engraçado e rio. A mãe da criança, que deve ser advogada, aproximou-se deixando a filha chorando e meteu o dedo na minha cara:
— Seu riso sarcástico, data vênia, está constrangendo minha filha. Vou ajuizar uma ação de indenização por dano moral contra o senhor. O senhor sabia que nos Estados Unidos é assim?
A menina, que nem me vira, se levantara e esfregava a areia que ralara um pouco suas pernas e choramingando veio para perto da mãe. Então ela se dedicou à filha e saí de fininho.
Já imaginaram se ela cumprisse a promessa? Certamente encontraria algum juiz vaidoso e ávido por criar uma tese nova e sair na imprensa por condenar um desembargador aposentado que riu de uma pobre menina que caiu, provocando-lhe constrangimento e traumas que a acompanharão pela vida afora: como ela irá administrar seus tombos psicológicos se está gravada no seu consciente o riso irônico e sádico de um adulto sem coração? Não faz mal que tenha sido apenas um riso e não uma gargalhada. Juridicamente não há diferença. Também fiquei traumatizado. Nunca mais baterei fotos!
Li, no final do ano passado, que tramita no congresso um projeto de lei que criminaliza o preconceito por orientação sexual. Não sei se, a estas alturas, foi aprovado ou não. Ele prevê pena de dois a cinco anos para quem impedir ou restringir manifestações de afetividade entre homossexuais, bissexuais e transgêneros em público. A notícia, que eu guardei, saiu aqui.
Sou contra discriminações em geral até porque fui discriminado por ser ruivo, pintado e gordo quando criança e, principalmente, na adolescência, quando não era tão gordo, mas ainda ruivo e sardento. Guardo e resguardo traumas invencíveis e choro toda noite quando lembro dos meus apelidos. Decliná-los aqui esgotaria imediatamente os limites de caracteres do UOL. O menos humilhante foi Bugio.
Mas há exageros. Se eu, na rua, chamar um negro de macaco estarei cometendo um crime. Mas se alguém, branco ou negro, me chamar de bugio fica por isto mesmo. Chamar um ruivo de bugio não caracteriza delito. Ruivo não é raça!
Mas voltando ao projeto de lei sobre a discriminação de gays, bis e trans e suas manifestações de carinhos em público.
Se dois gays resolverem ter relações sexuais em público e um guarda tentar impedi-los poderá se dar mal. Se ordenar que cessem as manifestações de carinho praticará o crime previsto na lei e se sujeitará à pena respectiva, com a agravante de que ele é um dos que devem resguardar o cumprimento das leis. Quer dizer, assegurar aos abordados segurança e tranqüilidade para sua atividade amorosa...
Se, educadamente, buscar explicações sobre se se trata de sexo carinhoso ou animal, estará perturbando a intimidade dos dois e ouvir a explicação de que estão ao abrigo da lei porque estão apenas manifestando carinho mútuo em público.
E se encontrarem algum advogado com o espírito daquela que me abordou na praia poderão ajuizar ação de indenização por dano moral contra o Estado por terem sido perturbados em seu conluio homoafetivo...
E nós, contribuintes, acabaremos pagando o ato, digo, o pato!
Escrito por Ilton: às 19:30
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SER SOCIALISTA E SER CAPITALISTA

Como não sou sociológico nem filósofo nunca me preocupei muito em estudar profundamente a diferença entre ser socialista e capitalista (notem: não estou abordando a diferença entre socialismo e capitalismo, mas entre ser socialista e ser capitalista). Além disto, sou muito ingênuo, pelo menos assim me avalio. Sou, para todos os efeitos e segundo conceitos de meus colegas, amigos e genro, um capitalista. Um capitalista assalariado e por isto patrimonialmente pobre.
Se fosse socialista seria rico. Estou descobrindo, aos poucos, que a forma mais fácil de enriquecer é ser socialista. Lula, por exemplo, em quatro anos duplicou sua fortuna segundo sua declaração de bens entregue ao TSE ao se candidatar. José Dirceu choramingou, à época de seu processo de cassação por não ter recursos nem para pagar advogado. Logo em seguida saiu ao Mundo ostentando uma riqueza portentosa: no Fórum Social Mundial da Venezuela chaveada hospedou-se “no melhor hotel da Capital, o Gran Meliá, com diária básica de US$ 299,00”; encomendou da Harley-Davidson uma V-Road de R$ 90 mil, segundo IstoÉ Dinheiro nº. 437, pág. 31 (não sei se comprou ou não); participou de um jantar com ACM e esvaziaram três garrafas do vinho La Tache, da casa Romanée-Conti, da França, que custava R$ 5.000,00 a garrafa (publiquei matéria a respeito em 07/02/2006 (aqui). Agora viaja pelo Brasil e tem gente que gasta capital para ouvir suas bazófias socialistas.
Chico Buarque é socialista ou capitalista? E Tarso Genro, que assume hoje o Ministério da Justiça com objetivo de lutar pela relativização do ato jurídico perfeito e que é senhor de um considerável patrimônio? Tenho um amigo petista roxo que tem oito apartamentos alugados só em Porto Alegre. Ele se diz socialista. É mesmo?
Reconheço que eles conseguiram seu patrimônio por mérito mas com alguma incoerência. Quando pobres, ou menos ricos, certamente os guiava o pensamento de uma justa distribuição de bens e de renda. Ou será que então eram capitalistas e só depois, com dinheiro no bolso, se tornaram socialistas? Delfim Neto, Ministro da Fazenda da Ditadura, também dizia que o bolo precisava crescer para ser distribuído. Mas Delfim não era socialista e nunca precisou cumprir o que prometeu. Estão percebendo minha dificuldade nessa diferenciação? Minha (in)capacidade de apreender o sentido de ser socialista e ser capitalista me l |