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JUS SPERNIANDI - Ilton C. Dellandréa


"LULINHA PAZ E AMOR" ATACA DE NOVO!

É hora de recomeçar com a normalidade do blog. Ele está meio pipocando, isto é, não segue mais a linearidade proposta no início, que era a postagem de um texto por dia, exceto nos fins-de-semana quando o ritmo seria diminuído para o blogueiro, que é também é filho de Deus, pudesse descansar um pouco.

Ontem perdi boa parte da tarde inerte diante da TV Câmara, vendo e ouvindo a inquirição do “representado” Roberto Jefferson. Naturalmente, pouca coisa de aproveitável. Os deputados inscritos para fazer perguntas estavam mais preocupados em explanar seus pontos de vista, alguns se defendendo aprioristicamente não sei do quê, e levavam mais tempo perguntando do que o representado respondendo.

Cada deputado tinha cinco minutos para formular sua questão. Alguns levavam 13, outros mais do que isto, e ao fazer a pergunta apenas repetiam o que havia sido indagado antes, por outros deputados, e as respostas do representado podem tranqüilamente ser reduzidas a duas laudas – no máximo – de papel.

Se os juízes usassem a mesma técnica inquiritória nas audiências, então sim vocês iriam ver o que é morosidade da Justiça.

A sessão terminou sem que todos tivessem tempo de perguntar. Parece que vai continuar hoje. A de ontem rendeu-me uma forte lombalgia, daquelas que produzem dores lancinantes na hora de procurar uma posição para dormir. Fui obrigado a usar a cadeira-da-mamãe (o papai, aqui em casa, ainda não adquiriu o status de ter sua própria cadeira, por isto solertemente, há muito tempo, se apoderou da da mamãe). Hoje vou poupar-me e já programei um filme em homenagem íntima ao PT: “Em Má Companhia”, de Joel Schumacher, com Anthony Hopkins e Chris Rock, que comprei no balaião das Americanas, via Internet, por R$ 19,90.

No mais, decisões importantes serão tomadas hoje. Vai ser instalado oficialmente o Conselho Nacional de Justiça, pseudônimo do Controle Externo da Magistratura. Com isto, podemos dormir e respirar aliviados. Mais uma vez nossos males serão banidos, como já ocorreu com a eleição de Tancredo Neves, com a Constituição de 1988, com a entrada em vigor do Código de Trânsito, acontecimentos que marcaram a história do país e que a mídia e os políticos elevaram à categoria de salvação da pátria. Deu no que deu.

O presidente Lula também assina hoje, às 11,00 horas (pelo menos está previsto) outra Medida Provisória. A “MP do Bem” (quer dizer que todas as outras foram do Mal?). Acometido da síndrome pré-eleitoral em que se cognominou de “Lulinha Paz e Amor”, agora – em ocasião muito sugestiva – ele nos presenteia com essa benevolente medida.

Anunciada no mês passado, a chamada "MP do Bem" visa aliviar a carga tributária para empresas em que as exportações representem a maior parte do faturamento. Em princípio, trata-se de reduzir as alíquotas de impostos como o PIS (Programa de Integração Social) e Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social) para novos investimentos voltados para a exportação. "Há alguns temas ligados às pequenas e micro empresas, mas também [há] algumas áreas ligadas ao desenvolvimento regional e a correção de algumas regras que hoje estão criando obstáculos para o crescimento econômico", disse Furlan, que acrescentou que a demora foi "benéfica" porque significa que mais setores vão receber benefícios ficais. Ele negou, no entanto, que a "MP do Bem" vá conter medidas para desonerar produtos da cesta básica, como alguns produtos alimentícios e de limpeza (aqui).

“Fazer o bem sem olhar a quem” parece o apanágio norteador da medida. Só parece. Na verdade, talvez fosse melhor olhar em alguma direção e fazer algo em benefício dos mais necessitados, desonerando, sim, produtos da cesta básica.

Mas daí já é querer demais.



Escrito por Ilton: às 09:02
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PARECE QUE FOI ONTEM! OU ANTEONTEM! OU HÁ "TRESONTONTEM"!

Vou transferindo, ou pelo menos, repartindo culpas. Meu maior incentivador foi meu irmão de Florianópolis, o Celito.

Se não fosse ele certamente eu não teria iniciado, há exatamente um ano, este blog. A Anja Azul e o Minuano, ainda que não tenham consciência exata disto, foram co-responsáveis, conforme já salientei num dos primeiros textos que postei.

O blog iniciou com esta APRESENTAÇÃO:

É a única coisa que nos resta. Quando o amigo não resolve, o vizinho se omite, o padre se limita a rezar, o delegado diz que não é de suas atribuições, a Justiça demora e falha, só resta exercer galhardamente o jus sperneandi, ou seja, o direito de espernear.

Usando da teimosia da barata esmagada por uma sapatada e que vai se debatendo e lutando ingloriamente até o fim.

Você se acha no direito de consertar o mundo e escreve e manda artigos para publicar. Eles são recusados – alguns solenemente outros sem solenidade alguma – porque não integram a linha editorial do jornal. Você envia cartas dando sua opinião de leitor e elas são ignoradas. Eles têm seus próprios critérios (censura?) e, acima de tudo, têm sempre razão.

Resta-lhe lançar mão da INTERNET, verdadeiro repositório da Democracia de Idéias, embora infelizmente, neste país, ainda seja reduzido o número de usuários, o que restringe a propagação do pensamento livre e descompromissado.

Ainda assim constitui um meio eficiente de expressão. A presciência de que alguém, ao menos um, poderá acessar a informação e, concordando ou discordando, habilitar mais um neurônio e ver uma nova luz, já motiva.

Este blog vem para os fins do nome: publicizar artigos que foram escritos e enviados a jornais e não publicados, alguns que foram publicados e outros que sequer foram enviados. Vai se ocupar, também, de curiosidades, atualidades políticas e sociais, música, artes em geral, poesia e o que acometer a cabeça do escrevinhador.

Não há compromisso e tudo vai depender do arbítrio deste, que chegou a uma fase da vida em que pode se dar ao luxo de eleger como um de seus principais misteres o duro trabalho de fazer absolutamente nada e isto pode ser bastante cansativo.

O dolce far niente, no caso, consiste em ver filmes, navegar na rede, ler, andar e pensar, que é o exercício mais salutar de todos, principalmente enquanto o pensamento contiver a cobertura da indignação ética.

Nem tudo foi como a gente queria. Tive crises como a que acometeu o Dogman, esses dias, e estive a ponto de desistir.

Mas por ora ele vai ficar provisoriamente no ar.

Como se diz na construção civil, “não há nada mais definitivo do que o provisório”.

A verdade é que ele toma muito tempo. Mas tornou-se um vício.

A todos os leitores que por descuido, ou por qualquer motivo, ou mesmo sem motivo, aqui chegaram, um muito obrigado e, como diz meu filho, um forte abraço.



Escrito por Ilton: às 23:05
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"SORRY, PERIFERIA!"

Em fins de maio, em Rio do Sul, no caminho de volta para casa, escrevi o texto abaixo que esqueci de publicar, o que é comum na minha vida de blogueiro. Alguma coisa não se confirmou. Outras, sim. A conclusão continua valendo. Para não lhe prejudicar a autenticidade, e antes que se desatualize ainda mais, vai hoje como está no original:

“Olha para a minha cara para ver se estou preocupado com isto!” Essa foi a manifestação do presidente Lula no dia 20/05/2005, antes de viajar para a Coréia do Sul e para o Japão, quando indagado sobre a instalação da CPI no Congresso para investigar a denúncia de cobrança de propinas nos Correios.

Pois eu acho que ele deveria estar. Afinal, se ele é o Presidente do Brasil qualquer problema nacional deve preocupá-lo. O descaso é o pai da impunidade. Na verdade, como em outras vezes, tudo não passou de uma bravata presidencial. Ele estava realmente preocupado. Preocupado em abafar a criação da CPI e tentando retirar do Congresso a possibilidade investigativa do caso.

Por quê? Porque o caso está sendo investigado pela Polícia, ao que consta com acompanhamento do Ministério Público Federal, e CPIs, na grande maioria das vezes, acaba em pizza. No entanto, mesmo que o inquérito policial prossiga, mesmo que suba ao Judiciário e seja aberta uma ação penal visando apurar a culpa dos envolvidos, é claro que a vitrine mais adequada para todos seria a CPI, que é acompanhada de perto pela imprensa, e através da qual o povo brasileiro tomaria conhecimento das mazelas e mumunhas que envolvem o caso.

Infelizmente, processos judiciais são demasiadamente lentos e na maioria das vezes acabam em prescrição, que é uma pizza mais elaborada, assada em fogo brando, num forno mais frio e solene e solerte, com temperos mais esmerados e aplicados aos poucos – alguns anulam o sabor e vai ser preciso começar tudo de novo –, sem contar do risco de que, no final, ela queime sem queimar os envolvidos.

Por isto, para o Governo e sua base aliada, é melhor lutar para que as investigações ocorram apenas nos níveis legais e próprios para esse tipo de procedimento: o Ministério Público e, depois, o Judiciário. Se você quiser esconder alguma coisa, use a Justiça.

Talvez, até lá, o presidente Lula edite uma Medida Provisória elevando o status de chefe dos Correios ao de Ministro de Estado para que tenha direito a foro privilegiado e venha a ser julgado pelo STF, um órgão de composição política cuja luta principal e colaborar abnegadamente para a estabilidade do Governo que está no poder.

Não faz mal que os gatunos ajam à luz do dia ou, pelas esquinas administrativas, nas noites de breu. Importa é que seja mantida a estabilidade e a confiabilidade do Governo. Sempre.

Qualquer tentativa em contrário atenta contra a Democracia e o Brasil deve demonstrar, por todas as formas, que é um país sério, confiável, que as instituições são firmes e fortes e que não há como voltar atrás. Somos uma Democracia qualificada por uma corrupção sem precedentes e ela também democrática, porque não há nada mais pluripartidário – e o pluripartidarismo é um dos esteios da Democracia – do que a base aliada do Governo no Congresso.

Então, pelo que dizem, pensam e agem nossos governantes, qualquer tentativa de desfazer ou prejudicar a base aliada é um atentado à Democracia. À Democracia deles, é claro, pois aquela que nós desejamos – pelo menos a que eu tenho como conceito – é bem diferente.

A Democracia brasileira existe apenas para consumo interno dos que governam. É um círculo restrito e suas fronteiras coincidem quase que integralmente com os contornos do Distrito Federal.

De vez em quando ela se expande um pouco. Mas só quando o Aerolula levanta vôo para visitar outro país ou outro Estado da Federação.

"Sorry, periferia!" – como seguramente não diria o Ibrahim Sued neste caso.



Escrito por Ilton: às 21:07
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NÃO TE PARECE?

 

Ainda me lembro – parece que é hoje.

Pequenos meus passos – grandes caminhos,

rumo incerto fim.

 

Mas ia eu, vou, medo-sem-ter.

mares cortando...

 

Só – vago peregrino sem canção.

Ainda me lembro – ind’agora que é.

Caminhos grandes a percorrer.

 

Não te parece que o vento muda,

que caem as folhas,

que descem nuvens no teu olhar?

Que a Noite é a última,

Que o Sol se apaga,

Que a Lua é negra – não te parece?

 

Que eu passei – comprida sombra –

fletida em curvas,

cortada em retas, nos calçadões,

Não te parece?

 

É tarde!

 

Morrem os anjos – não sou desperto!

Morrem os sonhos – quero viver!

Fecham-se os olhos – não te parece?

 

(Taió, 18/19.03.1974)



Escrito por Ilton: às 10:13
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MORREU UM AMIGO VIRTUAL, MAS DE VERDADE

Hoje não vou escrever nada além de umas poucas palavras.

Não tenho vontade. Mas minha vontade, hoje, não foi quebrada pela preguiça, nem por capricho ou qualquer mania do cotidiano tão comum no meu espírito meio vagaroso.

Recebi, há pouco, no comentário do post abaixo, notícia de que faleceu o escritor e jornalista José de Anchieta Loriano, que foi um de muitos amigos que este blog me propiciou.

Ele mantinha um jornal, O Balaio, em Atibaia-SP, que publica hoje sua biografia. A seu convite, escrevi dois ou três artigos nele.

Também mantinha o blog Migalhas de Saudade – que certamente agora ficarão muito mais esmigalhadas e difusas pelos confins desse universo que é a nossa mente – e o Clássicos do Cinema, para o qual também colaborei.

Estranha, essa realidade de hoje.

A gente chora por amigos dos quais nunca apertou a mão...

Mas que são amigos iguais àqueles com quem a gente tomou uma cerveja ontem. Ou anteontem.



Escrito por Ilton: às 11:20
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PRECISA COMENTÁRIO?

Fotos: Flávio Florido – Folha Imagem – UOL

 

Ele disse que o seu sofrimento foi em razão do jogo Brasil x Argentina.

A cruz, ao fundo, tem realmente a cor da bandeira do país vizinho.

Cada um sabe a cor e o peso da cruz que carrega.



Escrito por Ilton: às 23:23
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TAMBÉM QUERO MENSALÃO, DIGO, INDENIZAÇÃO

Ouvi, hoje, que no Rio de Janeiro, uma universitária recebeu indenização por dano moral por ter sido chamada de “gorda” por um professor de Direito.

Ela saiu da sala, deixou o gravador ligado, e ao voltar percebeu que riam dela. Depois ouviu na gravação que o professor comentou que o gravador representava a inteligência artificial usada para o estudo, enquanto a dona saia da sala para ir à cantina comer alguma coisa e engordar.

Não achei tão ofensivo assim. Foi um comentário infeliz, talvez. Mas atualmente tudo é motivo para exigir reparação a esse título. A cartilha do Nilmário Miranda sobre o politicamente correto foi adotada oficiosamente. Li, até, que os deputados do PL vão entrar com uma ação de indenização por danos imorais, digo, morais, contra o deputado Roberto Jefferson, que os acusou de participar do esquema mensalão.

Aliás, Roberto Jefferson já foi gordo, lembram? Fez uma cirurgia de redução do estômago e emagreceu 60 quilos. Foi seu maior erro. Os gordos são geralmente confiáveis e até por injunção física não podem se dedicar a certas atividades facinorosas com a mesma desenvoltura de um magro.

Nunca julguei um ladrão gordo que tivesse praticado um furto mediante escalada – por exemplo – e os batedores de carteira geralmente também são magros: precisam de preparo físico para correr caso sejam flagrados.

Aliás, condenei um gordinho, certa vez. Ele tentou arrancar a bolsa de uma mulher, que reagiu com a eficiência de toda mulher, isto é, aos gritos, assustando-o. Ele correu e ao atravessar a rua foi pego por um veículo que por acaso era de um Delegado da Polícia Federal... Além de gordo, azarado. O dano maior foi no capô do carro.

Eu sempre fui gordo, desde a infância, e além de gordo, ruivo e sardento. Em resumo, feio! Essas características motivavam gozações de colegas, algumas humilhantes. Se fosse cobrar pelos constrangimentos sofridos estaria riquíssimo.

Certa ocasião voltava da aula, assobiando, e na minha frente iam dois empregados da oficina mecânica de meu pai. Ouvi um dizer alto, após me ver:

– Hoje vai chover. Tem bugio assobiando. E quando bugio assobia na serra é sinal de chuva. Se o bugio é gordo, é trovoada na certa!

Para quem não sabe, bugio é um símio de pêlo avermelhado e aquela observação doeu fundo.

Noutra, ainda, eu tinha vestido calção para jogar futebol e o tio de um colega observou:

– Puta que o pariu! Olha só as pernas desse animal!

Eu era gordo do tipo pícnico e minhas pernas eram muito grossas. Envergonhado, corri para casa e nunca mais usei calção. Desisti do futebol, eu que tinha planos de me profissionalizar. Poderia ter jogado tranqüilamente até à Copa de 1982 e não deixaria o Paulo Rossi fazer o que fez com nossa seleção. O Brasil perdeu um grande jogador. Bem feito!

A obesidade é um problema mais de ordem psicológica do que física na infância e na adolescência. Na universidade eu havia superado esses traumas. Mas nem todos conseguem. Ontem, ainda, o presidente Lula, ao receber o Ronaldinho, usando da sensibilidade paquidérmica que lhe é peculiar, comentou que o atleta está mais gordo que ele... Mais tarde, pronunciando-se a respeito da corrupção galopante no governo, que eclodiu com as denúncias do ex-gordo Roberto Jefferson, disse que, se for preciso, na apuração das irregularidades, “cortará na própria carne”.

Não é preciso, presidente! Um bom programa de reeducação é suficiente para enxugar adiposidades maléficas. Estou falando de reeducação alimentar para emagrecer. Eu emagreci 21 quilos!



Escrito por Ilton: às 12:14
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MORREU ANNE BANCROFT

Em 21/02/2005 postei, aqui (favor rolar a página), um comentário sobre o belo filme Nunca te Vi, Sempre te Amei, com Anne Bancroft e Anthony Hopkins.

Bancroft ganhou o BAFTA de Melhor Atriz, por esse filme.

A atriz ficou conhecida por sua atuação no filme A Primeira Noite de Um Homem, com Dustin Hoffman.  

Ela faleceu nesta segunda-feira, aos 73 anos, no Hospital Mount Sinai, em Nova Iorque, vítima de câncer de útero.



Escrito por Ilton: às 00:49
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SERÁ QUE ELE VAI FICAR VERMELHO?

Costumo alternar assuntos sérios e amenidades, neste blog. Como ante-ontem e ontem falei de política e crise, hoje seria dia de matéria suave, sobre tema do cotidiano, até jocoso, e tenho alguma coisa preparada. Vai ter que esperar.

O que está ocorrendo no Brasil, hoje, é algo sério. Muito mais sério do que imagina a maioria dos brasileiros. Pela primeira vez sinto o temor de que alguma coisa, além de bate-bocas no Congresso e desmentidos oficiais, possa acontecer. Isto não é ironia.

Esse esquema desavergonhado do mensalão é coisa nunca vista. Pelo menos nunca veiculada, embora possivelmente a prática não seja nova: deputados de outros partidos recebem, por fora, para votar a favor dos interesses do Governo nas matérias mais importantes em trâmite no Congresso Nacional? Não gostaria de ter de acreditar. Vender a própria consciência, vender o livre arbítrio, vender a alma? Será que somos tão ruins assim na hora de votar? Ou será que aqueles que vendem seus votos elegem representantes para que eles se vendam também?

É de se imaginar que esse esquema ocorreu com a Reforma da Previdência, com o Estatuto do Desarmamento, e com outras questões em que a unanimidade esteve longe de ser conseguida. E se assim foi, essas votações foram viciadas e a aprovação ocorreu não através da vontade livre dos deputados representantes do povo, mas de votos descaradamente comprados (este o termo mais adequado que encontro). O que foi aprovado seria nulo, de pleno direito, como numa eleição viciada por votos fantasmas e comprados – corrupção ativa e passiva no mais absoluto conceito.

 Embora não veja como reverter a situação, que está juridicamente estabelecida, e vai faltar coragem no STF para, eventualmente, mesmo que provocado, declarar qualquer nulidade. Mas vai restar sempre a sensação do engodo, da mentira e da injustiça institucionalizada.

Querem, também, descolar o presidente Lula disso aí, como se ele não fosse co-responsável pelo que acontece no seu Governo pelo simples fato de ser Presidente da República. É, sim! E o ministro Aldo Rebello já esclareceu que Lula sabia do pagamento das mesadas.

O presidente é do PT e o maior interessado na aprovação de suas propostas e na manutenção da “base aliada” para impor suas idéias e seu ideário governamental. Não é verdade que o Governo não tem nada com isto. Eu me sinto tratado como otário por “eles” há muito tempo. Mas nunca imaginei que tivessem o desplante de entrar na minha casa e me chamar de idiota. Mas “eles” têm. Não são muito criativos.

 O pior é pensar que o PT se tornou o partido mais rico do Brasil – talvez da América Latina – graças à inventiva esperteza de praticamente impor aos filiados uma contribuição incidente sobre seus vencimentos. Houve um exagerado incremento de cargos em comissões e são os comissionados os que mais contribuem para o partido. Funcionários públicos são pagos pelos contribuintes, que somos nós. Então nós é que financiamos o PT (a conclusão não é minha) e por conseqüência contribuímos com esse mensalão... Mesmo sem querer.

E, hoje, o presidente Lula participa da abertura do IV Fórum Global de Combate à Corrupção, em Brasília, quando vai assinar a carta que conclui o processo brasileiro de ratificação da Convenção das Nações Unidas (ONU) contra a Corrupção.

Se fosse escolher, não encontraria ocasião mais oportuna.



Escrito por Ilton: às 13:55
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COMEÇOU A DEGRINGOLADA?

Acharam o fio da meada ou é mais intriga da oposição?

Leia e avalie.

Vamos ver onde isto tudo vai parar.

Ministros do STF já falam em impeachment do presidente Lula.

Aqui!

Parodiando um dito antigo: um governante não precisa apenas parecer ser honesto; ele tem que ser honesto.

Democracia consolidada?

Agora é o momento de ver.

Tem mais:

"Governo tenta descolar Lula de mesada e cria problemas no Congresso".



Escrito por Ilton: às 20:18
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O AFOBADO COME QUENTE

Se eu não fosse tão apressadinho poderia ter enriquecido o post de hoje com mais um exemplo.

No exato momento em que estava postando a matéria, ouvi o motoboy jogando a revista Veja na minha porta.

A capa: CORRUPÇÃO. AMAZÔNIA À VENDA. Petistas presos aceitavam propina de madeireiras que devastavam a floresta.



Escrito por Ilton: às 14:21
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"ESSE GOVERNO NÃO ROUBA, NÃO DEIXA ROUBAR E COMBATE A CORRUPÇÃO"

O PT, desde que surgiu no mundo político, se proclamou um partido íntegro e incorruptível. Formado, inicialmente, em sua base, por jovens verdadeiramente idealistas, foi com esta roupagem que, pouco a pouco, conseguiu subir como instituição séria e assim que homologado era o único a ter um programa partidário. Os demais apenas seguiam velhos ritos e costumes.

Pouco a pouco, com críticas ferozes contra “eles” – “eles” eram todos os que integravam a “classe dominante” e, principalmente, os que apoiavam a ditadura – angariou simpatia popular e conquistou inicialmente prefeituras pequenas, depois maiores, como São Paulo, para desespero daqueles que viam nessa tomada de poder um processo revolucionário. Temia-se a implantação do comunismo que deglutia criancinhas e que nos privaria de nossas propriedades, nos obrigaria a dividir nossas casas, nossos quartos e talvez até nossas camas com aqueles que não dispunham de moradia.

Instituiu nos municípios o endeusado “orçamento participativo” que não passou da oficialização de algo que, na verdade, sempre existiu, dependente da maior ou menor vontade dos vereadores representantes dos bairros. A decisão pelos próprios moradores enfraqueceu as câmaras municipais, mas foi positiva.

A conquista de Estados foi um passo importante e no Rio Grande do Sul saudada como um marco para as glórias petistas. Durou algum tempo, mas não o suficiente para demonstrar que, no âmago, era muito diferente das administrações anteriores.

Conquistou também cadeiras no Legislativo, em todos os níveis. Mas, ao mesmo tempo, numa espécie de simbiose maléfica, adquiriu maus hábitos e vícios daqueles com quem era obrigado a conviver. A vida político-partidária é um emaranhado de relações intrincadas num cipoal em que, se é perfeitamente identificável a ponta de cada tendência, no meio elas se embolam e se contaminam e nem sempre permite distinguir rumos e fins. O PT foi contaminado.

A grande conquista foi a eleição do presidente Lula. Mas receios e temores foram logo dissipados por ações que desconjuntaram o conteúdo programático do partido e também aqui pouco se fez de inovador. O governo petista não faz muita coisa diferente do que fez o antecessor, FHC, que integrava o grupo do “eles” quando presidente, pois integrante da classe dominadora.

Mas a ausência de corrupção continua sendo o apanágio maior do partido, embora, de vez em quando, alguma notícia sempre desmentida com veemência, ou pelo menos repelida sob o surrado argumento de que se trata de “intriga da oposição” (mudam os governos, os políticos, as tendências, mas certas expressões idiomáticas persistem teimosamente e ainda são as mais adequadas para expressar certas verdades).

Noutro dia, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, disse no programa Roda Viva, da TV Cultura: "Esse governo não rouba, não deixa roubar e combate a corrupção".

Mas estão aí o caso Daniel, aqui no Rio Grande do Sul a suspeita de que a contravenção ajudou na eleição de um governador petista, a lavagem de dinheiro do bingo, e o mais recente, o caso das propinas dos Correios.

Hoje, outra: O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) disse em entrevista exclusiva a Renata Lo Prete, da Folha, que aliados recebiam "mesada" de R$ 30 mil do tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

A aura toda descamba e surge a grande dúvida: será que isto ocorre só com o PTB ou com todos os deputados integrantes da “base aliada”? Não sei. Dificilmente alguém saberá. Vamos viver, como sempre, na suprema ignorância de bobalhões dominados pela mesma “classe dominante”. O PT se tornou “eles” muito depressa: em menos de três anos.



Escrito por Ilton: às 13:24
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VOX LIBRE - UM NOVO BLOG NO AR

Você já ouviu falar do Delegado Federal Antonio Rayol? Talvez não.

E do marqueteiro Duda Mendonça? Claro que sim. A inversão de valores atinente à própria natureza humana praticamente impõe que nos lembremos com facilidade daqueles que praticam alguma atividade ilícita e que esqueçamos com a mesma facilidade daqueles que investigam e apuram essa conduta.

O Delegado Rayol foi o responsável pela diligência que resultou na prisão do Duda Mendonça quando ele participava de uma briga de galos no Estado do Rio – isto também todo mundo lembra e foi objeto de dois ou três comentários neste blog (aqui e aqui) – e chegou a sofrer perseguição por isto.

Desde o dia 03 consta aí do lado, nos meus links, o VOX LIBRE, um blog mantido pelo Delegado Rayol e que me foi indicado por meu irmão.

Vale à pena visitá-lo. Eu já o inclui entre os meus favoritos.



Escrito por Ilton: às 20:55
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REMINISCÊNCIAS DA PRAIA DO GRANT

Dia 24 de maio, na Praia do Grant, escrevi um texto e esqueci de postar. Vai agora, complementando outro, publicado há dias:

Quando a reclusão voluntária nos afasta da banda-larga o acesso vicioso à Internet é automaticamente menor o que traz vantagens. O tempo aqui está maravilhoso. Dos cinco dias até agora, em quatro choveu. E bastante.

É assim que gosto de praia: longe do mar, sem o suor escorrendo sovaco abaixo, sem areia grudando nos pés, e uma chuvinha constante batendo no telhado, cá dentro aconchegado num calorzinho natural e lendo. Pena que estou lendo manuais, pois gostaria mesmo é de algum livro. Mas os aparelhos modernos são tão sofisticados e os manuais são quilométricos, embora reduzidos, e você descobre que há coisas que nunca vai usar.

Acredito que se essa chuva estiver caindo em Taió, o pessoal de lá deve estar colocando as barbas de molho porque a enchente é quase certa. Se não parar logo de chover. O logo é hoje. Talvez eu tenha que revisar a minha idéia de voltar a Porto Alegre pela BR-116, embora nos meus planos esteja uma visita a Taió para bater fotos para o T A I Ó e visitar meu sítio, se é que ainda não foi invadido pelo MST.

O monitor que minha cunhada emprestou, e que eu regulei e depois não ligou mais, também consegui consertar de um modo assustadoramente eficiente, sábado: em casa, não ligava; levei a um técnico e lá ele funcionou perfeitamente. Voltei, e ele não ligou de novo. Depois de umas quatro idas e vindas desconfiei que a cara do técnico o atemorizava e o fazia funcionar.

Pedi uma foto 3 x 4 do técnico. Ele me olhou, desconfiado, duvidando alguma coisa de mim. Expliquei-lhe os motivos, ele entendeu e me conseguiu uma foto, mas cobrou R$ 35,00.

Em casa, abri o monitor, colei a fotografia na parte interna superior do gabinete e ele está funcionando perfeitamente até agora. Hoje é terça. Há seres inanimados que só entendem a linguagem do terror.

Domingo, pela primeira vez, me dispus a ver o tal de Pânico na TV. O apresentador, que parece um cara conhecido, ficou o tempo todo dizendo que não queria audiência, que não queria bater o Gugu nem o Faustão... Tive vontade de atender ao apelo dele e desligar a tevê. Agora me arrependo de não tê-lo feito.

Você não sente, às vezes, atração pela estupidez? Confesso que sinto. Às vezes fico assistindo um programa ruim motivado por algum resquício masoquista e com o objetivo apenas de ver se conseguirão piorar o que já está pior. Uma atração irresistível pelo feio.

Ao fundo a voz irritante daquela ex-BBB, a Sabrina Sata, digo, Sato, repetindo “é verdade, é verdade!”.

De repente levei um susto: um locutor estranho começou a ler um poema de Fernando Pessoa. Creio que a produção andou vendo, antes, o filme “O Mundo de Andy”, sobre o comediante Andy Kaufmann, que num show para universitários que insistiam que interpretasse o personagem Latka, da série “Táxi” (que ele detestava), passou a ler “O Grande Gatsby”, de Scott Fitzgerald, para surpresa e decepção da platéia.

A coisa ia indo bem, eu atento, o poema era muito bom. Então, a cagada imperdoável: sem mais nem menos cortaram a cena, interrompendo a poesia para inserção de um comercial. Acho que todo o pessoal do programa é vesgo.

Não agüentei mais. Pior do que isto nada poderia acontecer. Mudei para o Canal do Boi. Cansei do Canal da Anta.



Escrito por Ilton: às 10:16
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LULA VAI DESCONHECENDO E ESQUECENDO.

Nunca qualifiquei o presidente Lula de ignorante. Não que o ache inteligente, culto ou sábio, muito pelo contrário. Mas sempre tive respeito por sua posição de presidente do Brasil, de magistrado máximo da Nação, e só essas qualificações impedem de achincalhá-lo como mereceria se fosse um mortal de minhas relações.

Mas numa das vezes que ele ultrapassou os limites do bom senso, com suas piadas (piadas?) infames, desabafei e sugeri que os leitores lessem Fernando Pessoa. Foi em 24/06/2005: Estou tentando fugir do desabafo que me aperta o gogó. Não dá! Esse nosso presidente é tão ridículo nos seus improvisos, suas piadinhas são tão sem graça (embora tenha uma claque de puxa-sacos que o incentivam soltando risinhos forçados) que dá vontade de chorar.

Agora o João Ubaldo Ribeiro, em entrevista à Veja do dia 18/05/2005, diagnosticou: O brasileiro é tão subserviente que, quando alguém chama Lula de ignorante – o que é uma verdade –, diz-se que o presidente está sendo desrespeitado.

O fato de eu concordar não justifica que tome o mesmo caminho. Não votei no Lula, não voto no Lula nem nunca votarei no Lula. Essa a minha vingança particular e desvalorizada pelos votos de milhões que acham que para governar um país não é preciso ter pelo menos estudo superior (para ser escrivão judicial ou delegado de polícia, precisa). Não votaria no Lula nem para Síndico do meu prédio, se eu residisse em condomínio. Você votaria?

Em sua recente viagem à Coréia do Sul e ao Japão ele deu pelo menos três demonstrações do sua infausta inconveniência e deslumbramento com o Poder. Ele imagina que na sua posição pode, em qualquer circunstância, fazer coisas idiotas que considera gracejos porque tem certeza de que abnegados assessores darão risotas incentivadoras. Na Idade Média havia o bobo-da-corte para alegrar o rei e os senhores. Esse cargo seria naturalmente extinto na monarquia de Lula I.

Na Coréia do Sul a primeira gafe: aquela de brincar com o dedo da luva dependurado porque o presidente tem apenas quatro dedos na mão esquerda, numa ocasião séria, de queima de incenso em homenagem a mártires coreanos. Não pegou bem. Não naquele momento. Que ele use a falta do dedo para brincadeiras nos arraiais do Planalto, enfiando, por exemplo, o cotoco no nariz para fingir que enfiou o dedo inteiro, tudo bem. Mas numa solenidade séria, jamais. Afinal, a luva estava certa. Se há algo anormal é com a mão do presidente.

Depois aquele gesto de virilidade, erguendo o punho imitando a ereção de um pênis, quando foi presenteado com uma caixa de ginseng e informado de suas propriedades afrodisíacas. E o presenteado nem foi ele, foi dona Marisa. Também não ficou bem. Nada sei sobre a intimidade sexual do casal, mas desde adolescente ouço dizer que aquele que apregoa sua força sexual é porque, na verdade, precisa de afirmação. Propaganda enganosa, em outros termos. Em todos os casos, este é um problema dele, do casal.

A terceira gafe foi ao receber de presente, do Diretor do Metrô de Tóquio, um relógio-de-bolso e perguntar: Põe onde? No pescoço? Mas a falha maior, no caso, foi da assessoria ocupada em aplaudi-lo. Será que ninguém da enorme comitiva teve a perspicácia de lhe dizer onde enfiar o presente? Ninguém? Relógio de bolso se prende no cós da calça e se enfia... no bolso, ora bolas!

O jornal A Notícia, de Joinville, de 28/05/2005, refere: Esse foi um dos momentos de maior descontração em um dia agitado para o presidente e sua comitiva. Antes de ir ao metrô, Lula havia almoçado com o imperador Akihito e a imperatriz Michiko. Na chegada ao palácio, quase deixa dona Marisa no carro.

Dizem que Freud está desatualizado. Mas o nosso presidente seria um prato cheio para os psicanalistas de plantão. Só eles para explicar esses desconhecimentos e esses esquecimentos.   



Escrito por Ilton: às 13:09
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A FÚRIA DOS BANCOS

Vi e ouvi no Jornal Hoje de 27/05/2005 o caso de um cidadão que obteve emprego mas que, no último momento, não foi aceito porque estava inscrito no SPC. Motivo: mantinha uma conta-corrente em um banco, não a movimentou por oito meses, não houve encerramento formal da conta, as taxas se acumularam e a falta de pagamento do saldo negativo justificou a inscrição do correntista no Serviço de Proteção ao Crédito.

Julguei, como desembargador, caso semelhante. O correntista ajuizou Ação Revisional cumulada com Declaratória de Inexistência do Débito artificialmente criado por falta de movimentação da conta. Antes de abordar os aspectos jurídicos da questão fiz considerações de ordem moral:

1. Está-se diante de uma situação inquietante. É definitivamente amedrontador cogitar que alguém, sem nada dever, possa ser assim considerado com base lançamentos bancários em conta-corrente que não movimenta e que abandonou com saldo positivo.

2. Mais aterrador ainda é constatar que o Banco teve condições de verificar seus próprios extratos, ler a inicial e a sentença e ainda assim quedar inerte sem explicar – nem se pede que justifique – a origem de lançamentos sob a rubrica SEGURO UNICL EX que levaram a conta do apelado do saldo positivo de R$ 20,50 em 08.07.1994 ao saldo negativo de R$ 22.961,12 em junho de 1997 – sem que ele a tenha movimentado através de saque e sem que tenham havido quaisquer lançamentos autorizados a não ser encargos.

3. Em situações como esta o Banco deveria recolher os cacos do que resta de sua dignidade e fazer acordo incondicional com o correntista fazendo o máximo possível para mitigar os efeitos de sua conduta despótica e que, conforme bem salientou a sentença, beira o ilícito penal.

4. Ainda assim maneja recurso de apelação e, também aqui, arrogando-se autoridade que não detém, já de início aduz que “devolve ao conhecimento dessa Colenda Câmara toda a matéria – objeto do recurso – versada até então, em destaque especial às razões expendidas e aos fundamentos invocados na Contestação, tendo-as como reproduzidas nesta peça para todos os efeitos de direito”.

5. Em primeiro lugar, o apelante não tem autoridade de devolver ao conhecimento da Câmara aquilo que entender. O princípio da devolução baseia-se na lei e não na vontade das partes. Em segundo lugar é inepta a inicial de apelação que apenas se reporta a manifestações anteriores dos autos.

Analisei os aspectos jurídicos (em 14 laudas) e terminei o voto mantendo o estorno de descontos abusivos ordenados na sentença, como o SEGURO UNICL EX., definindo que todos os encargos lançados após 08.07.1994 são abusivos porque o apelante não demonstra suas origens ou exigibilidade. Não houve saques depois dessa data. Apenas os lançamentos unilaterais e despejados do Banco.

26. Por isto, na verdade, a incidência prática da revisão é muito curta. Compreende apenas o período que vai da data do saldo zero (15.03.1994) até a data acima. Depois desta cabe apenas restabelecer o saldo de R$ 20,57 – somado aos valores que resultarem apurados como indevidos, do período revisando – e, mediante correção monetária e juros, ser disponibilizado à ordem do credor. Esse o sentido da repetição do indébito inserta na decisão. Não há o que modificar.

A decisão foi unânime. Por isto, não prevalece o entendimento, que a Rede Globo encampou, de que o Banco, nesses casos, tem direito de cobrar taxas e tarifas por serviços que não presta.

Assim decidiu a 20.ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul na Apelação Cível n.º 198051179, em 24/11/1998.



Escrito por Ilton: às 14:17
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VENCENDO AS ARMADILHAS DA BR-470

Estamos em Porto Alegre. Voltamos pela serra, isto é, saímos de Itajuba, pegamos a BR-470, paramos dois dias em Rio do Sul, e subimos por Lages, Vacaria, São Marcos, Farroupilha e Porto Alegre.

Pretendia ficar cinco ou seis dias em Rio do Sul e Taió coligindo dados para um dos trinta livros que ainda vou escrever para concorrer ao Nobel de Literatura (terei, então, uns 130 anos de idade), mas a Fibrilini me achou em Rio do Sul e antecipei a volta. Não há nada mais decepcionante do que ser acometido por uma crise de fibrilação na casa de um parente ou amigo. Ninguém gosta de ter um paquiderme lento e confuso dentro de casa. 

Na BR-470, entre Navegantes e Rio do Sul, notáramos que o Governo está fazendo, finalmente, alguma coisa: colocou placas como “Obra do DNIT” mesmo em locais onde não há obras. Só obradas. Mas o Governo não é assim tão mesquinho e fixou outras placas de advertência, aqui e ali: “CUIDADO. Rodovia perigosa”.

Como é que uma coisa inerte, imóvel e inanimada pode ser perigosa? Isto ocupou parte do meu profundo pensamento. Lembrei do espanhol António Machado, que vi citado, se não me engano, por Atahualpa Yupanqui: "poeta, no hay camino, el camino se hace al caminar". Uma estrada nunca pode ser perigosa, por mais curvas, buracos e lombadas que tenha.

Um rio sim. O rio tem vida, segue em margens nem sempre obedecidas, às vezes se encorpa, se eleva, destrói casas ribeirinhas, lambe lavouras com línguas de fogo e fica louco furioso. Mas uma estrada é um ente passivo e submisso aos que nela transitam. Mesmo assim, por se tratar de advertência do nosso Governo paternalista que se especializou em proteger os cidadãos de perigos inexistentes (novamente tentam nos convencer de que um revólver é mais perigoso que um bandido), fiquei temeroso.

Não faltou a comparação com uma serpente, que também é comprida e sinuosa. A cada curva eu temia que se erguesse uma cabeça com dois dentes gigantes e incisivos, língua bifurcada e sibilante, e desse o bote no carro, jogando-o em alguma das muitas pirambeiras das margens. Mas me tranqüilizei: cobra é um ser vivo e inconstante, ao contrário da estrada que está sempre no mesmo lugar. Conclui que perigosa, na verdade, não é a rodovia, é a atitude do Governo que não a duplica e, o que é pior, nem a restaura por completo, apenas remenda aqui e ali. Perigosa é a conduta que o motorista tem de tomar diante das panelas, da falta de acostamento, do excesso de tráfego, das curvas fechadas e da impossibilidade de simplesmente dirigir normalmente.

Mas os dez dias passados em Itajuba foram bons. Levei Joyce, Proust e o Os Lusíadas. Mas acabei lendo, mesmo, o último livro de Paulo Coelho. Brincadeira, brincadeira: eu nunca leria Joyce, Proust e o Os Lusíadas. Nem Paulo Coelho. Na verdade levei manuais de uns três aparelhos que comprei para aprender a usá-los adequadamente.

Há mais de ano adquiri uma câmera digital mas só tiro fotos no modo automático. O manual tem 131 páginas e o Português usado é o de Portugal. Preciso de um tradutor. As informações concisas pressupõem que aquele que adquire uma máquina digital é fotógrafo profissional e familiarizado com o métier. Esquecem que nesta época de consumo desvairado até alguém como eu consegue adquirir um aparato desses. Além do tradutor, vou procurar um cursinho no SENAC. Enquanto isto, continuarei a tirar fotos no modo automático.

Levei também o manual de um gravador de devedê adquirido recentemente. O aparelho foi junto, é claro, porque não há nada mais estúpido do que você ler um manual sem ter o aparelho para ir fazendo os testes.

Esse é ainda mais conciso: 59 páginas. Levei fitas VHS-C de filmagens domésticas realizadas com uma velha Gradiente para gravá-las em devedê. Em dez dias consegui gravar um devedê-RW. Ainda assim um dos chapters, inexplicavelmente, interrompeu-se na metade. Ainda bem que foi possível deletá-lo sem comprometer a solução de continuidade. Fiz uma cópia no micro e ficou boa.

Aqueles dias chuvosos e frios na Praia do Grant, em Itajuba, bem ao meu gosto, serviram pelo menos para uma das atividades extraordinárias a que me propus. De resto, a vidinha descompromissada, sem banda larga, foi uma delícia. 



Escrito por Ilton: às 08:29
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