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JUS SPERNIANDI - Ilton C. Dellandréa


UM VIOLINISTA NO TELHADO

(Detalhe da capa do dvd nacional)

Durante minha adolescência e parte da vida adulta detestei os musicais. Não entendia como, de repente, o personagem rompesse a seqüência de uma conduta linear e bancasse o idiota, passando a cantar, ainda que em relação ao enredo. Era ilógico.

Idem com números de danças quando dispensáveis. O filme não perderia nada sem esses números que privilegiam o artista em detrimento da história. Pura americanalhice – concluía – e saía do cinema às vezes antes do final. Assim, por exemplo, em Dançando na Chuva.

Depois que adquiri um hometheater (fiz um empréstimo na SICREDI para tanto), comprei alguns musicais, para testar o som, e conclui que nem todos são tão abomináveis quanto pareciam.

Um dos que assistira até o final, Um Violinista no Telhado, pedi que minha filha comprasse quando esteve em Londres (depois adquiri a versão lançada no Brasil).

A direção é de Norman Jewison, sempre seguro e objetivo. Os artistas são desconhecidos de grande parte dos cinéfilos. A maioria tem origem no teatro: trata-se de adaptação de um musical de grande sucesso na Broadway.

A ação se passa numa longínqua aldeia russa, Anatevka, onde convivem desconfiadamente judeus, em minoria, e russos, em setores – impossível chamar aquilo de bairros – separados, praticando pequenas e características mazelas.

O personagem principal é o leiteiro Tewye, pai de cinco filhas. As três mais velhas vão casando e rompendo tradições arraigadas. A cada rompimento um ingrediente novo e mais grave é introduzido e desespera o pai cioso de que as tradições devem ser mantidas porque constituem a base na vida em comunidade.

Tradição é o que dá equilíbrio à nossa alma – diz ele. Sem as nossas tradições a nossa vida seria tão instável como a de um violinista no telhado!

Seus monólogos com Deus são impagáveis, nem sempre conformados mas nunca revoltados: “Não é nenhuma vergonha ser pobre. Mas também não é nenhuma grande honra!” ou “Será que romperia um vasto plano eterno se eu fosse um homem rico?

A relativa paz familiar e comunitária é quebrada por injunções políticas. Por ordem do czar, os judeus são obrigados a abandonar a aldeia, retratando-se então uma partícula da diáspora. 

Cada um procura o rumo melhor, conformado contra essa força superior e invencível. Na impossibilidade de resistir, vendem o que têm e buscam a América ou lugares mais distantes para viver.

Fica a lição: voluntária ou forçadamente, é possível quebrar tradições sem que este rompimento ocasione desvios irrecuperáveis ou causem à humanidade crises epilépticas irreversíveis. Foi quebrando tradições e fazendo revoltas que conseguimos algum progresso.

Pena que nem todas as lições são aprendidas. Nem outras mais graves e abrangentes, como na II Guerra Mundial. Se o fossem, certamente a situação no Oriente Médio seria outra e os perseguidos de outrora teriam mais compreensão com a sorte dos sem-pátria de hoje.

Mas a humanidade parece que não aprende e de hecatombe em hecatombe vai se destruindo e se reconstruindo logo à frente.

Voltando ao cinema: Dançando na Chuva – e agora vou arranjar briga com algumas amigas  é uma chatice mesmo. 



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 11:39
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MEU DESCANSO SEMANAL

Deus é onipotente, mas descansou no sétimo dia.

Desconfio que não foi bem isto: os editores da Bíblia, que a publicaram milhares de anos mais tarde, deram uma arreglada aí e escreveram algo diferente. Nada indica que naquele tempo os patrões da grande imprensa fossem diferentes dos de hoje.

Acho que Deus estava tão entretido com suas criações que resolveu parar um pouco, pensativo. No dia anterior criara o Homem e, por sua onisciência, percebeu que fizera uma divina besteira. Tanto que logo expulsou suas criaturas do Paraíso. A primeira coisa que o casal fez, quando a sós,  foi inventar o Mal  e jogar a culpa numa cobra, como fazem muitos atletas – exceto a Daiane e poucos outros – e principalmente os políticos.

Deus cochilou quando criou o Homem. Imaginem a Terra sem ele: Sete Quedas ainda estariam intactas, as florestas exuberantes, os animais se digladiariam em lutas necessárias apenas à própria sobrevivência sem interesses econômicos e sem a exibição repetitiva e sádica do National Geographic ou do Discovery.

Se Deus parasse um dia antes evitaria, por exemplo, que lá pelo ano de 1947 nascesse, na Irlanda, um bebê inocente e querido pelos pais como toda criança, que estudaria Teologia, deixaria a batina, se transformaria num imbecil, e no domingo, no fecho das Olimpíadas de Atenas, tiraria a possibilidade da medalha de ouro na maratona do nosso Vanderlei Cordeiro de Lima.

Bem, mas o que eu queria dizer é que Deus, mesmo onipotente, descansou no sétimo dia.

Eu, que sou fraco, tenho fibromialgia, gastrite, dermatite seborréica, unha encravada e preguiça, sinto-me no direito de fazer o mesmo.

Não estou me comparando a Ele. Deus me livre! Mas já que o padre Afonso insiste que fui criado à Sua imagem e semelhança, vou descansar sempre aos domingos e não postar nada. Por isto não escrevi ontem. Claro que ninguém percebeu, até porque, pelo que notei no contador, nos finais de semana, os meus leitores se reduzem em pelo menos 50%: passam de oito para quatro.

Acho que são os meus irmãos e nem todos. Porque o Damião entrou. Mas o Damião é um gentleman de primeira.

Nem meus cunhados, depois que falei da mãe deles, têm acessado o blog. Não reclamaram, mas há silêncios que soam mais alto que os berros do Datena transmitindo vôlei em final de Olimpíadas. 

Ela continua aqui. Eles não se preocupam porque sabem que está bem cuidada. Pela filha. Mas estou retirando o que disse para que possam acessar o blog de novo. Afinal, por parte dos Feuser-Fernandes, são os meus melhores cunhados. 



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 10:38
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DAIANE E OS CHORÕES

Noutro dia estava defronte à tv manuseando esse aparelho que, sem dúvida nenhuma, é um dos mais importantes da era da comunicação de massas: o controle remoto.

Vi o Alexandre Frota chorando. Não sei porque, pois mudei de canal. Mas imagino que tenha feito alguma coisa do mal, senão não faria sentido. O pranto, em certas fachadas, soa surrealista como a maquiagem triste na cara alegre de um palhaço.

Noutra ocasião vi o Romário lacrimejando. Também ignoro os motivos. Acho que foi por não ter sido, mais uma vez e injustamente, segundo ele,  convocado para a seleção. Foi na Globo.

O Pelé é um chorão contumaz. Não pode ver um microfone que já vai se debulhando. Se eu fosse um comediante impediria o Pelé de entrar nos meus shows. Acho que até piadas lhe provocam lágrimas.   

Não há nada que desabone a dignidade de um homem que chora, independentemente de sua corporatura. Mas não é preciso chorar sempre ou por ninharia. Isto desmoraliza o instituto emocional do pranto.

Já a nossa querida Daiane, que teria motivos muito mais do que os desses aí somados, não vai chorar. Não por falta de provocações. Numa entrevista ela foi tetra-assediada (veja aqui).

Acho que o assédio lacrimal, assim como o sexual, deveria ser elevado à categoria de crime. Ou, pelo menos, de contravenção – sem querer, obviamente, censurar a imprensa. 

Mas ela desenganou repórteres de rapina lacrimal:

"Eu não entendo essa coisa de chorar. Claro que fiquei com raiva. Você acha que não fiquei com raiva? Não foi raiva de ninguém, mas de mim mesma: poxa, quem errou fui eu. Eu sabia que poderia ter conseguido e não consegui uma medalha. E você sabe o quanto isso é importante não só para você, mas para milhares de pessoas que estão te assistindo e milhares de pessoas que trabalharam com você. Mas, mais importante do que para todo mundo, é para você que treinou. Imagine como você se sente, se poderia ter sido campeã olímpica e não foi? Óbvio, eu poderia ter me derretido chorando, mas não, não chorei. (...) Estou com muita raiva mesmo, estou puta da cara porque não consegui, mas não vou chorar, e acho que é mais porque as pessoas querem que eu chore. E eu não vou chorar e acabou".

Ela mede só 1,45 m. Mas cresce alguns metros quando dá essas lições. Atentem: ela vai fazer escola e ser logo imitada...

Disso tudo, temo duas coisas: que o Lula edite uma medida provisória obrigando-a a chorar ou que seja colocada no limbo e não mais entrevistada. Como disse outro dia, a televisão não gosta de gente autêntica. Na busca do emocionar, emocionar e emocionar o objeto do repórter tem que derramar lágrimas.

Para evitar isto, sugiro que o próximo entrevistador a assediar a Daiane use um microfone com essência bem forte de cebola. Talvez então ela chore, ainda que não naturalmente.

Se o repórter também chorar a emoção será dobrada. Quem sabe renda pontos no ibope e abra caminho para uma nova modalidade midiática: o choro conjunto e participativo. Entrevistador e entrevistado poderiam se abraçar e chorar copiosamente.

Haja coração!

Se acatarem a idéia, dispenso os royalties. Hoje estou muito generoso e disposto a colaborar desprendidamente para o sucesso alheio.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 12:33
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NOTAS DE RODAPÉ

Honestamente não creio ser possível um retrocesso tão grande neste país a ponto de se conseguir censurar oficialmente o trabalho da imprensa. É algo absolutamente impensável. Mas tenho visto tanta mudança que julgava impossível, tantos lobisomens uivando nas noites de lua cheia, direitos adquiridos pisoteados, o ato jurídico perfeito desconsiderado que, na verdade, estou apreensivo e chegando à conclusão de que nada, absolutamente nada, é impossível.

A política do é dando que se recebe não é criação do governo atual. Acho que começou com a república. O FHC a aprimorou mas não conseguiu muitos resultados porque o PT era oposição e podou muitas de suas pretensões – boas e ruins. O governo Lula está dando lapidadas muito especiais e a levando às ultimas conseqüências essa política e com resultados mais positivos. A oposição de hoje é mais volúvel.

Quem lê o meu blog pode sentir alguma má vontade contra o PT e o Lula. Não é bem assim. Minha indignação ética é que comanda meus pataços. E agora o Lula e o PT estão no poder. Não vou criticar quem não faz porque não pode. Mas não é má vontade. Critiquei o FHC, embora não dispunha de um blog para isto. Ele foi o melhor cabo eleitoral do Lula e continua sendo, ao que parece, ainda que inconscientemente para ambos, o guru recôndito da política atual.

O Estado vem distribuindo multas, diretamente ou por seus órgãos, com exemplar profusão. Todas serão pagas por nós, cidadãos comuns. Não se pense que as aplicadas à CELESC pelo apagão em Santa Catarina, no ano passado, não vão ser repassadas às contas de luz. Mas o presidente Lula vetou lei que elevava de 2% para 20% a multa dos inadimplentes condominiais. Aqueles que vivem em condomínio formam uma espécie de comunidade com interesses comuns. Quando um só condômino atrasa sua cota, sofrem todos os demais, pois as despesas têm que ser pagas. Só que elas não entram nos cofres do Estado.

Alguém lembra das simonetas? No tempo da Ditadura tentaram instituir o pagamento de um percentual cada vez que se abastecesse um veículo. Foi gasta uma fortuna na confecção de tíquetes especiais para isto. O nome simoneta homenageava o então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen. Pois não conseguiram. Mas a democracia do FHC nos aplicou, na calada da noite e sem alarde, a tal de CIDE – que o Lula, na campanha, não sabia o que era – e algo muito pior: a CPMF.

O presidente Lula anda fazendo afirmativas reveladoras. Tachou os jornalistas de “bando de covardes”, disse que fora ao Gabão para “aprender como é que se fica no poder por 37 anos e ainda se consegue reeleger” e que “se sente frustrado por ter sido rejeitado pelo Exército”. É impossível invocar Freud para explicar. Uma atenta amiga minha, que por sua vez tem uma amiga ligada à área médica, me advertiu que Freud está fora de moda. Não é preciso: seus assessores explicam, após servis gargalhadas, que o presidente é muito brincalhão e gosta de pilheriar com os outros. Espero que não sejamos nunca, por qualquer motivo e por qualquer forma, obrigados a achar graça dessas piadas e a gargalhar com eles.

Nem por decreto, digo, nem por medida provisória.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 06:58
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R E T I F I C A Ç Ã O

O Mister Magoo corrige a nacionalidade da atleta que referi na matéria de ontem:

Ilton, a atleta aquela é suíça. E, de fato, tens razão, aquela imagem dela, por mais que tenha tamanho significado, já encheu a paciência”.

Obrigado, Bonassoli.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 06:53
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ANÃO GIGANTE EXISTE...

Em princípio, nada tenho contra as Olimpíadas. Servem, até, para quebrar a monotonia televisiva nossa de cada dia, apesar dos lugares comuns: a falta de criatividade faz com que os repórteres rebusquem coisas velhas nos seus baús e tentem nos impingir como novas.

O Arnaldo Jabor falou do Jesse Owens e da humilhação que em 1936 infligiu a Hitler, que por puro despeito teria se retirado do estádio, o que, a bem da verdade, não foi comprovado. O mundo não precisa mais dessas forçadas. Certas coisas não precisam ser sempre lembradas. As más lembranças podem induzir fatos negativos.

Ainda bem que não mostraram – pelo menos não vi – aquela alemã cambaleante, retorcida e descoordenada na linha de chegada de uma corrida como exemplo de superação. Aquilo foi a mais pura demonstração de desrespeito ao próprio corpo e à própria saúde.

Mas há a possibilidade de enriquecimento cultural. Com o Sílvio Luiz e a Magic Paula aprendi, por exemplo, que a Nova Zelândia fica na Europa... Logo em seguida eles corrigiram o erro.

Eu vi o Brasil conquistar sua primeira medalha de bronze, no judô. Foi uma luta sem graça, um agarra-agarra que não saiu da tentativa, parecia até que um estava tirando o outro para dançar mas não chegavam a um acordo sobre quem faria o papel da moça e quem o do varão. O brasileiro ganhou pelas punições que o adversário sofreu e não por algum golpe mais vistoso de sua iniciativa.

Eu fiz duas aulas de judô, no tempo da faculdade, no prédio da Medicina, situado na praça do "Kioski", que o Carlos Damião vem mostrando no seu blog. O professor era um Aducci, cujo prenome não lembro.

Experimentei então uma das minhas mais gloriosas realizações esportivas. Aquilo é que foi superação! Tinha que correr, apoiar as mãos no chão, virar, rolar, levantar e sair correndo novamente. Nunca conseguira fazê-lo antes, por isto exagerei na impulsão e cai de bunda. O choque foi tão forte que até o lustre estremeceu. E o piso era de concreto... Se o Aducci for muito persistente deve estar ainda hoje me esperando para a terceira aula.

Eu sei que é querer demais, mas preferiria que vencessem os naturalmente mais fortes. Aqueles a quem a natureza dotou de dons, força e talento superiores e não aqueles que os conseguem através de hormônios ou outras drogas. Os resultados que temos aí parecem artificializados através dessas substâncias e isto não pode servir de parâmetro para a história da fisiologia humana – se é que alguém busca algum estudo científico nas olimpíadas.

Vencem os que usam drogas cada vez mais elaboradas, recebem preparação especialíssima e são criados em viveiros com finalidade predeterminada. Como os nadadores. Li, numa reportagem sobre o Ian Thorpe, o australiano, que as drogas que tomava para reforçar sua massa muscular lhe davam aquelas feições de rosto e nariz compridos. Passei a perceber que com outros nadadores ocorre o mesmo. Daqui a uns tempos vai ser difícil distingui-los quando estiverem juntos no tablado de largada.

No final, a sensação de que foram quebrados mais recordes mas, pelos métodos empregados, que os novos limites superados foram sempre os artificiais e não os naturais do homem. Apesar de não se poder esquecer do treinamento a que se dedicam.

De resto, devo um pedido de desculpas ao meu filho. Sempre procuramos educar nossos num clima de absoluta sinceridade. Mesmo quando ele teve que tomar uma benzetacil e perguntou se ia doer eu respondi que sim, e bastante.

Quando contava com 8 ou 9 anos de idade me fez uma pergunta que só da mente infantil pode brotar:

– Pai. Existe anão gigante?

Respondi que não, que seria um contra-senso, um anão gigante seria uma pessoa adulta normal.

Mas numa prova de levantamento de pesos vi um anão gigante oriental, não sei de que país, lutando contra seus flatos para erguer os halteres. Não deve ter passado das provas preliminares, porque não mais apareceu.

Então, meu filho, segue a retificação e o meu pedido de desculpas, embora com 10 ou 11 anos de atraso: anão gigante existe.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 00:11
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CUIDADO! VOCÊ AINDA PODE SE TORNAR UM BANDIDO...

São cada vez mais freqüentes as notícias de que cidadãos de bem estão sendo presos em flagrante por porte ilegal de armas registradas. Mas continuam os crimes praticados por marginais com armas irregulares na mesma intensidade, se não superior, à de antes da vigência da Lei do Desarmamento.

Isto revela uma face do Estado Brasileiro Democrático que, na verdade, parece mais uma democracia ditatorial ou uma ditadura democrática – fica ao gosto do leitor a ordem dos produtos – que consegue impor, na base do conchavo, da oferta de cargos nos altos escalões a partidos interesseiros para que passem a constituir a base aliada do Governo, o que nem mesmo a Ditadura Oficial Militar conseguiu.

No Brasil há mais de 300 mil infratores de trânsito dos quais o Estado não consegue apreender a carteira de habilitação. Essa a face boca-aberta do sistema: manda, mas não tem como fazer cumprir. É uma autoridade desautorizada e por isto estúpida. Mas as multas, as meninas dos olhos dos nossos preocupados governantes e sobre as quais repousam cobiçosos anseios arrecadatórios, serão cobradas. No Rio Grande do Sul foi aprovada lei instituindo o parcelamento para facilitar o pagamento.

Infrator da lei é um quase-bandido que infringiu alguma regra do Direito, a base reguladora da ordem social, e por isto merece pena. Se você, num domingo à tarde, no período de férias escolares, cruzar a 50 km por hora uma lombada eletrônica defronte a um colégio fechado, sofrerá uma multa de R$ 120,00. Já se você esfaqueou seu vizinho e produziu-lhe lesões leves poderá ser até perdoado ou pagar uma cesta básica como pena e fica tudo por isto mesmo.

Bandido é um infrator mais pesado. É o mesmo que malfeitor, que segundo o Aurélio, é “aquele que comete crimes ou delitos condenáveis; celerado, facinoroso, facínora”. Quem porta arma, mesmo registrada, é um malfeitor, pois está cometendo um crime inafiançável. Então é um bandido.

Aquele vigilante de Rio Grande que com sua arma registrada desferiu um tiro no chão para apartar uma briga de terceiros é um malfeitor (Correio do Povo, Porto Alegre, 05/01/2004). Os brigões, que se engalfinharam por uma querela no trânsito, certamente nem respondem a processo. Mas aquele que acabou com a briga, sem agredir ou ferir ninguém, e que evitou um resultado que poderia ser grave (como a lesão de um dos dois contendores) é o bandido que foi preso em flagrante. Os brigões são os mocinhos e o xerife é vesgo por força de lei.

Também aquele cidadão que, conforme A Notícia, de Joinville, de 23/03/2004, desferiu um tiro na bunda de um elemento que tentava arrombar seu veículo na garagem de sua casa foi autuado em flagrante. O arrombador não sofrerá pena concreta. Seu ato não passou de tentativa de furto (se tal for configurado). Mas o cidadão que defendeu seu patrimônio vai responder por porte ilegal de arma, sujeito a condenação.

Então tome-se redobrada cautela. Está muito fácil ser bandido neste país. Mesmo que tente fazer algo positivo você poderá ser preso inafiançavelmente.

Se, por exemplo, em alguma ocasião, um ladrão se aproximar e você conseguir segurá-lo com uma arma, mesmo sem atirar, cuidado! Ele não terá feito nada e você não conseguirá prova contra ele. Quando a polícia chegar, você irá preso em flagrante porque porta uma arma, ainda que registrada. Ele não. Afinal, nada mais fez do que supostamente ameaçá-lo de um hipotético assalto. Você é que praticou um crime. Melhor fazer um acordo e nem chamar a polícia...

Pelo critério de valores sócio-governamentais vigentes cabe a você optar entre ser assaltado ou se transformar em malfeitor e ser condenado. Essa a ótica dos nossos legisladores. É menos grave lesionar um vizinho – um delito de resultado concreto – do que cruzar uma lombada eletrônica a 50 km por hora sem risco a ninguém – uma infração administrativa sem resultado.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 07:30
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D A I A N E

Errei porque errei... um pouco de nervosismo... eu sei fazer tudo... no treino deu certo aqui errei, eu errei, foi só isto... eu não estou triste por não subir ao pódio, mas porque eu errei ali...

Nenhuma desculpa esfarrapada, nenhum redirecionamento de responsabilidade, embora a repórter da Rede Globo tentasse, de todas as formas, arrancar uma resposta padrão, recheada dos chavões que geralmente os perdedores avocam para justificar seus erros. Afastou a qualificação de semideusa que lhe quiseram impingir. Apesar de toda a cobrança, demonstrou ter discernimento suficiente para saber que não é devedora.

Também não é uma perdedora – e agora sou eu que me permito utilizar lugares comuns – porque já comprovou que o que não conseguiu fazer ontem já o fez com precisão em outras ocasiões.

Venceu quem arriscou menos e por isto errou menos. Daiane arriscou mais, com dois movimentos que ela criou, de elevada complexidade, e errou mais.

Mas ela sabe e sabe que sabe. Isto, em termos, é o que importa. É claro: uma medalha olímpica é um empurrão para frente, a consagração, a possibilidade de ganhos financeiros que certamente a tranqüilizariam quanto ao futuro e a retirariam mesmo do nosso Jardim Urubatã – ela mora aqui, não sei se vocês sabem, embora treine em Curitiba.

O que falta aos nossos atletas solistas não é treinamento físico. É uma assistência psicológica mais eficiente e personalizada. Percebe-se uma tensão invencível estampada no rosto de cada um, quando focalizados em close no momento da prova. No semblante dos concorrentes estrangeiros isto não aparece com tanta evidência: demonstram mais segurança e os traços do rosto influenciam no ânimo. Também um apoio oficial mais efetivo. Só telefonar depois não adianta.

Foi por causa do joelho? O que você sentiu? Você está triste? – tentei imaginar qual seria a reação da repórter se ela respondesse que estava alegre.

Sua mãe te ama – a repórter repetiu a assertiva diversas vezes tentando arrancar alguma lágrima. Mas ela se manteve firme. Não chorou.

Sua mãe está dizendo que você já é uma vencedora, uma guerreira, ela está muito emocionada, ela diz que te ama – e nada!

A televisão não gosta de reações autênticas. A repórter ficou mais desconcertada com a falta de lágrimas do que a Daiane por não ter conseguido medalha.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 23:13
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CIRCO NO HAITI

Em 1970, tempo da Ditadura, criticou-se o General Médici por pretender colher dividendos em virtude da vitória da seleção brasileira na Copa do México.

Antes, nas eliminatórias, ele insinuara que o Dadá Maravilha devesse ser convocado e o técnico, João Saldanha, respondeu à altura: “Eu não dou palpite na escalação do Ministério dele e ele não escala a seleção que eu comando”. Mais ou menos isto.

Foi um ato de coragem. Embora eu só tivesse 18 anos e vivesse nos fundões de Santa Catarina, já conseguia percebê-lo.

Sempre se criticou, de forma velada mas firme, como possível naqueles tempos nublados, os governantes que se aproveitavam de feitos esportivos para lucrar politiqueiramente.

Agora o presidente Lula levou a seleção para o Haiti com fins declaradamente políticos e ninguém critica. Ao contrário, todo mundo aplaude e acha bonito porque levou alegria ao povo de lá, que vive na extrema pobreza! Não deixa de ter sua lógica. Futebol, como vemos aqui, mata a fome.  

Vi, ontem, na ESPN, o Robert Scheidt, que conquistou a primeira medalha de ouro nas Olimpíadas para o Brasil, falando por telefone com o presidente. Foi algo demagógico e oportunista.

Pior: o Parreira não vai convocar alguns jogadores para o próximo jogo da seleção como castigo porque não se esforçaram para se liberar de seus clubes, na Europa, para participar da pantomima no Haiti.

Quer dizer: a Ditadura não puniu o João Saldanha (que não merecia punição mesmo) e a Democracia pune aqueles que, talvez até por força contratual, não participaram de um ato político-eleitoreiro e que também não merecem punição. Ou merecem?

Não tenho saudades da Ditadura. Paguei a ela, mais tarde, meu tributo, através de telefonemas anônimos e ameaçadores que recebi quando, já advogado e na oposição, lutei para a realização do sonho de um velho amigo de dotar Taió de uma rádio. Fui, nos limites da minha desimportância, um perseguido político. Mas não pretendo fazer jus a nenhuma indenização oportunista.

Além disto ajudei a fundar, em Taió, o diretório de um partido de oposição de vida efêmera, o PP (depois incorporado ao PMDB), liderado em Santa Catarina pelo então deputado João Linhares. E se fosse reprovado no concurso para Juiz ia ser candidato a vice-prefeito na chapa do PMDB – naquele tempo um partido confiável. 

Se tivesse seguido a carreira política talvez hoje entendesse essas contradições ininteligíveis...   



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 06:40
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EU E O MEU FANTASMA

(O quadro, por inteiro, pode ser visto no Espelho sem Aço).

EU E O MEU FANTASMA

Tenho caminhado pelas noites do mundo

à procura de fantasmas

e nunca encontrei algum:

apenas estrelas e luzes de néon

– fogo fátuo modernoso –,

bêbados trôpegos e mendigos nas calçadas.

 

Percorro os caminhos das formigas

do meu jardim

à procura de duendes

e só encontro flores.

Algumas belas e viçosas,

outras corroídas e murchas.

 

Pesquiso meu passado

em busca de um Napoleão

mas nem sei se já vivi

mesmo nesta vida.

Não me lembro

algo que valha à pena.

 

Não sei porque sou tão comum.

Meu único fantasma sou eu.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 06:37
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E S P U M O S O

Os pequenos acasos da vida são facilmente ultrapassáveis. Mas, e quando se trata de algo mais importante e duradouro? Então um certo temor, absolutamente explicável, toma conta de nossa mente ante a perspectiva do desconhecido.

Com Espumoso foi assim. Eu participava de um encontro de juízes em Santo Ângelo quando o desembargador Marco Aurélio, recém-chegado da Capital, informou da minha promoção para Espumoso.

Espumoso? Nunca tinha ouvido falar.

Sou de Taió, interior de Santa Catarina, e residia apenas há um ano e pouco no Rio Grande do Sul. Vivia debruçado sobre processos numa Iraí há muito sem juiz e não fora possível aprimorar conhecimentos geográficos. Por isto ignorava a localização de Espumoso. Não faz mal. Logo descobri que lá também não sabiam onde ficava Taió...

Nesse lugar desconhecido geográfica e toponimicamente eu teria que viver, com a família, até a promoção seguinte...

A primeira satisfação foi na chegada. Fomos almoçar na churrascaria do Purudo e a mulher dele, uma senhora muito simpática, me tratou de “moço”. Agradeci, envaidecido. Comecei a simpatizar com a cidade. O acaso, às vezes, é mais carinhoso que uma escolha mais elaborada.

Permaneci pouco tempo na Comarca e notei entre os advogados uma lealdade exemplar. Em Iraí havia três ou quatro e eles  se desentendiam mais do que gato e cachorro (no tempo em que gatos e cachorros eram inimigos). Em Espumoso havia nove ou dez e eram leais entre si e com terceiros.

No aniversário de um ano da filha de um deles quase todos compareceram. Em Iraí não era possível convidar três, porque ficariam um de costas para o outro.

Prova dessa união ocorreu num júri. O Defensor Dativo descobriu que sua mulher era parente de uma das vítimas e estava impedido de atuar. Isto uma semana antes da data marcada. Contatei o Dr. Marquese, representante da OAB na Comarca, expondo o problema. Não nesses termos, mas me mandou ir dormir que dariam um jeito.

Desentocaram de sua merecida aposentadoria o decano dos advogados da Comarca, Dr. Getúlio, então mais dedicado à sua fazenda do que às lides forenses, e que fora um dos melhores oradores do Tribunal do Júri. E coagiram o Dr. Valadares, um advogado de voz forte e presença marcante que para estas coisas, e para jogar futebol, apreciava muito ser coagido.

O réu, que numa briga no interior havia matado dois e ferido outros dois, nunca poderia imaginar que fosse tão qualificadamente defendido...

Acima, parte da Av. Ângelo Macalós. Eu contratei a peso de ouro um fotógrafo de lá para tirar fotos. Ele mandou várias. Mas só deu para aproveitar essa e outra que estou postando no Espelho sem Aço. A aqui publicada é fruto de puxa-saquismo: o prédio que aparece à direita, na esquina, naquele tempo abrigava o Fórum, e ele quis me agradar com essa lembrança.

Ele é um verdadeiro gênio: não resiste a uma garrafa, desde que contenha cerveja, e certamente entrou em alguma antes de tirá-las. Por isto, as demais saíram completamente tortas ou desfocadas e uma parece que está de cabeça para baixo. O pior é que paguei adiantado!

Antes que me esqueça: meu filho, o único gaúcho original da família, nasceu em Espumoso.  



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 21:54
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UMA RECAÍDA "BUENA"

Eu havia feito a mim mesmo a promessa de não mais criticar locutores esportivos. Depois que falei do Galvão Bueno, esses dias, assisti parte do jogo de vôlei masculino entre Brasil e Itália narrada pelo Datena e foi muito pior. Por isto a minha conformada decisão.

Mas não há como resistir. Dia 18, no revezamento 4 x 200, da natação feminina, quando a Joana Maranhão estava em último lugar, após elogiar a nossa equipe e seu esforço, o Galvão tascou: “Tá certo que estão brigando ali pela última posição”.

Meu filho e eu trocamos um olhar de cúmplice ironia mas não dissemos nada. Estou ficando muito tolerante e isto é ruim. Acho que é por causa da minha lombalgia.

Mas, pensando melhor, aí a centelha de uma idéia brilhante para uma nova modalidade olímpica.

Por exemplo: uma vagarida de bicicleta em que o vencedor fosse o último colocado. Vagarida é um neologismo que acabo de criar, como antônimo de corrida. Desculpem, mas não encontrei algo melhor. Estou receptivo a sugestões.

Claro, há necessidade de algumas regras básicas: dada a largada, o ciclista não poderia colocar qualquer dos pés no chão, pena de ser desclassificado. Nem retornar nem parar equilibrando-se: teria que ir para frente, em linha reta, numa raia de uns, digamos, no máximo 20 metros, para a prova não durar uma eternidade. Devagar e sempre.

O último a chegar conquistaria a medalha de ouro.

Então seria absolutamente possível “brigar pela última posição”.

Seria algo tão empolgante que a Rede Globo logo adquiriria direitos exclusivos de transmissão. Ela já faz isto com a Fórmula 1, muito menos emocionante! O Galvão, evidentemente, teria que ser o narrador...

Sem contar que estar-se-ia colaborando benevolentemente para a consagração do sábio preceito evangélico de que “os últimos serão os primeiros”. Até que enfim, em alguma coisa!



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 21:14
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CONTROLE EXTERNO NA IMPRENSA? — II

O Observatório da Imprensa, em sua edição de ontem, publicou o artigo Controle Externo da Imprensa?, que postei aqui em 10/08/2004.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 06:16
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CONTRIBUIÇÃO DOS INATIVOS

Sempre pautei meus julgamentos pela lógica.

Estudava o conteúdo processual, definia qual o caminho que a prova, a lei e, principalmente, a minha consciência apontavam e então proferia a decisão.

Consultei sempre Doutrina e Jurisprudência como reforço à minha tese e não poucas vezes julguei contra o entendimento dominante.

Não vou, agora, criticar a decisão do STF que julgou constitucional a contribuição previdenciária dos inativos porque não disponho dos votos dos senhores ministros e de sua motivação. Nem vou tê-los tão logo. A publicação oficial sempre demora um pouco.

Já abordei o assunto aqui no dia 26/06/2004.

Em princípio me parece ilógico e injusto que alguém que sempre contribuiu – é o meu caso, e por isto na análise da matéria minha cautela haverá que ser redobrada – com 11% dos seus vencimentos integrais para a previdência do Estado, exatamente para obter aposentaria, tenha que continuar a contribuir depois de aposentado...

Mais do que isto: por uma jogada legislativa que instituiu uma parcela autônoma (fundo de assistência à saúde), antes incluída naquele percentual (11%), a minha contribuição passa, agora que sou aposentado, para algo acima de 14%... Ou seja: a minha contribuição é maior como aposentado do que era quando estava na ativa...

Vou me reservar para dar opinião mais aprofundada à vista dos votos, mais tarde. Se valer à pena. Porque neste país tudo se resolve de acordo com o desejo dos poderosos, mesmo que não seja o mais lógico nem o mais justo.

Poderosos, para mim, são todos aqueles que, direta ou indiretamente, detêm o poder.

Aos outros, que não são poderosos nem seus fantoches, só resta o JUS SPERNIANDI...



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 22:15
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CONFITEOR

Quem lê o meu blog, e sei de alguns que o lêem, deve imaginar que sou um ser doméstico, comedido, fiel, tão pudico que nem faz amor totalmente pelado e que, antes de dormir, se ajoelha no lado da cama e reza contritamente um pai-nosso e três ave-marias. Geralmente o blog reflete a personalidade do blogueiro e o meu é bem comportado.

Os pataços que eventualmente distribuo são de natureza política e cívica e isto não é pecado; é de um dever ditado pela indignação ética e sempre foram até comedidos. Mas em termos de respeito ao ser humano nada há em desabono de sua conduta.

No entanto, para o bem de minha consciência, devo fazer uma confissão estarrecedora: eu tenho uma amante.

Não vou revelar seu nome correto para evitar açular-lhe sentimentos de vingança. Vou chamá-la de Átria Fibrilini. Não significa que seja italiana. Poderia ser Fibrilovski, ou Fibrilarsson, ou Fibrilman. Não tem uma nacionalidade definida, é universal e dotada um certo dom de ubiqüidade porque já me encontrou em lugares tão diversos quanto Alegrete, Salvador, Vila Velha, Itapema, Joinville, Bragança Paulista, Florianópolis...

A Átria é especialista em me fazer sofrer. E não consigo me livrar dela, e de suas visitas periódicas, de jeito nenhum.

Ela não marca hora nem para chegar nem para sair. Já permaneceu aqui em casa por quinze dias seguidos, desapareceu por uma semana, depois voltou e ficou mais dez dias. Quando viajei para Santa Catarina, em julho, ela não respeitou nem minha filha e foi junto. Depois de uns dois dias de intenso frio na Praia do Grant resolveu buscar um aconchego mais quente.

Completamente despudorada, chega de mansinho, geralmente de madrugada, se intromete entre a Ieda e eu e toma conta do meu coração. Exatamente do meu coração! Não podia ser mais cruel e possessiva. Sádica, fica dando chicotaços no meu peito. Sinto-me desequilibrado, fraco e desgastado e completamente dominado antes de se passar pelo menos um minuto.

Que ela não me respeite tudo bem. Mas e a Ieda? A Ieda não tem culpa das minhas fraquezas. Mas é quem acaba sofrendo mais. É cinicamente desrespeitada.

Eu, é claro, faço o que todo homem nessa hora tem que fazer. Não discuto, não digo nada, fico exemplarmente comportado, na exata medida em que um homem com sua amante na frente da mulher pode ser comportado. Procuro me mexer o menos possível. Absolutamente passivo e inerte.

A Ieda, nessas ocasiões, ainda tem que satisfazer as vontades impudentemente sádicas da Fibrilini. Às vezes nem percebe que ela está na cama conosco e eu a acordo, tocando no seu braço, e digo apenas, baixinho:

– A Fibrilini taí!

Diante da Ieda trato-a pelo sobrenome para parecer mais impessoal.

A Ieda já sabe o que fazer. Levanta-se conformada e vai preparar um coquetel de quinidine, digoxina e propranolol.

Cerca meia hora depois meu coração vai se acalmando, mas segue descompassado. Para voltar ao ritmo sinusal vai depender da vontade da Fibrilini. Às vezes é questão de horas, às vezes ela só sai depois de uns dois ou três dias, ou mais.

Não diz adeus nem até logo. Mas depois de algum tempo, volta.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 18:35
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A MOROSIDADE DA JUSTIÇA - UMA VISÃO DE 1991

Este artigo foi publicado no jornal Zero Hora de 19/11/1991 e refletia minha posição diante de constantes críticas na imprensa, a maioria de autoridades ligadas à área judiciária, das quais discordava por considerá-las essencialmente superficiais e simplistas. Mantenho, na linha mestra, o mesmo pensamento, embora a "datação" tenha prejudicado, um pouco, sua atualidade:

 

"Em edições recentes, a imprensa local estampou matérias sobre a prestação jurisdicional no Estado. De um modo geral, responsabiliza-se o Direito e a Justiça de atuarem contra os pobres, uma vez que apenas são punidos os denominados “ladrões de galinha”, os negros e miseráveis de escassa instrução e beirando à oligofrenia. Aproveita-se o “gancho” para atribuir à morosidade da Justiça a causa da criminalidade.

As afirmações, mais do que resultado de um processo científico de investigação e pesquisa, emergem da comodidade que os críticos costumam vestir quando tratam de assuntos da Justiça, na exata presciência que têm de que o Judiciário dificilmente se manifesta a respeito, que os Juízes não respondem às críticas que lhe são feitas e que, em última análise, não lhes será necessário prestar contas, pois é livre a expressão de idéias e pensamentos.

Cabem algumas considerações. Não se pune o pobre porque é pobre, mas por ser culpado. A condenação é resultado da análise da prova conseguida em Juízo. A sentença é o ato mais elevado da prestação da Justiça, sujeita a exame nos tribunais hierarquicamente superiores, e espelha sempre o convencimento do Juiz: caso a caso, fato a fato e réu a réu.

O raio de ação de uma sentença é limitado. Circunscreve-se ao processo e réus atingidos em sua prolação. Por isto a acusação genérica que se faz, de que apenas os fracos e oprimidos são condenados, peca pela base. Uma sentença não é uma regra de obediência geral e não incide sobre grupos sociais, mas sobre pessoas individualmente consideradas.

Não consta que os advogados criminalistas do Estado estejam passando dificuldades maiores do que as que passam a maioria da população brasileira, nem que estejam abandonando a profissão por falta de serviço. Sinal de que os “ricos“ também são processados. Não serão condenados por serem ricos, mas se forem culpados.

Diz-se que os “ricos têm acesso a melhores advogados e que já na fase do inquérito podem contratá-los, beneficiando-se dos recursos e das provas”. Não vejo como a Justiça possa tomar abastados os miseráveis, para que tenham acesso às mesmas condições. Os advogados não são contratados pelos pobres porque estes não têm dinheiro para pagá-los e isto, por mais cruel que possa parecer a assertiva, é uma questão financeira, e não de Direito ou de Justiça. Ou melhor, é até uma questão de Justiça, mas de Justiça Social, que não encontra solução nas barras dos Tribunais e sim numa política econômico-financeira justa e distributiva.

Pecado maior é atribuir-se a causa da criminalidade à morosidade da Justiça. Não que esta seja um exemplo de rapidez, mas não receio afirmar que o Judiciário faz o máximo que pode com o instrumental que lhe é posto à disposição. Seria bom se a Corregedoria-Geral da Justiça do Estado divulgasse os boletins estatísticos sobre fluxo dos processos, principalmente na área criminal, objeto maior desta manifestação, para que alguns mitos em torno do assunto possam ser desfeitos.

Recentemente o senhor Geraldo Gama, secretário da Justiça e Cidadania (a Secretaria, ao contrário do que o nome sugere, não é vinculada ao Poder Judiciário), fez, pela imprensa, assertiva relevante no sentido de que haveria uma verdadeira explosão carcerária se fossem cumpridos os 22 mil Mandados de Prisão expedidos pela Justiça. Sinal de que esta, mesmo morosa, está alguns passos adiante da evolução do sistema carcerário estadual (a administração da infra-estrutura carcerária também não é atribuição do Poder Judiciário).

As causas verdadeiras da criminalidade residem no desequilíbrio social existente e devem ser buscadas e analisadas através do processo sociológico, e não do processo criminaI. Este, que pode até servir como referencial, é conseqüência e não causa da injustiça social. Por isto, dizer que o crime existe porque a Justiça é morosa serve apenas para desviar a atenção dos fracos e oprimidos. Estes mais uma vez atribuem sua desgraça a fatores alheios e remotos e se esquecem de buscar as causas reais. Os poderosos agradecem”.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 11:01
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O BARCO - INFERNO NO MAR

Você tem que se preparar física e psicologicamente para ver este filme, pelo menos na versão do diretor Wolfgang Petersen, que dura cerca de 209 minutos.

É um filme denso mas indispensável para quem aprecia a sétima arte. Isto na modesta opinião de um mero diletante. Os filmes e músicas podem ser bons para alguns e indiferentes ou ruins para outros. Depende da variável sensibilidade de cada pessoa.

Não é daqueles que você assiste e sai do cinema aliviado e cantarolando. É arte e a arte pode fazer sofrer! Traz à tona – expressão adequada por tratar de fatos passados, a maior parte do tempo, no fundo do mar – a tensão de tripulantes de um submarino alemão U-96 numa arriscada missão de patrulha na II Guerra. Enfoca a superação do homem diante de problemas cruciais cuja solução, muitas vezes, depende de criatividade e improvisação.

Para respeitar o realismo buscado pelo Diretor, deveria ser visto num armazém da CEASA, repleto de homens suando, sem  banho há dois ou três dias: é entre frutas, legumes e alguns enlatados que circulam, num ambiente apertado e sombrio, os tripulantes. Só isto é que seria capaz de aprimorar, ainda mais, o perfeccionismo do Diretor que realizou as filmagens internas na réplica de um submarino com as dimensões do original, exatamente para marcar o realismo. O fotógrafo usou lentes especiais e câmeras de mão em algumas cenas.

Percebe-se que, com a evolução dos fatos, a rígida disciplina germânica aos poucos vai afrouxando e os personagens se descuidando, relevando a hierarquia, decaindo psicologicamente para chegar quase ao desespero nas situações de maior perigo.

Na tentativa de fugir aos ataques da Marinha Britânica, em determinado momento, o submarino é obrigado a mergulhar mais fundo do que sua estrutura teoricamente suportaria. Os efeitos sonoros de parafusos estourando e água esguichando são convincentemente realistas nessa edição remasterizada e bem feita.

Apesar dos percalços, sustos e temores, o submarino consegue cumprir a missão e retorna festivamente aos estaleiros, na França dominada. O final é inesperado e, de certa forma, surrealista, considerando-se o que aconteceu antes.

Por este filme o diretor alemão foi atraído a Hollywood onde vem realizando alguns bons trabalhos, entre os quais Tróia, seu último sucesso. Mas nenhum deles se compara à grandiosidade de O Barco, embora esta grandiosidade, em grande parte, se esprema e se exprima no interior de um acanhado submarino.

O filme recebeu seis indicações para o Oscar e é semi-autobiográfico, baseado no livro do ex-repórter de guerra Lothar-Günther Buchheim que participou de missões do gênero e figura como personagem.

Uma curiosidade: a cantora francesa Rita Cadillac faz uma ponta nos comemorativos que antecedem a missão. Nada tem a ver, evidentemente, com a nossa protuberante (não mais tanto) ex-chacrete.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 11:29
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