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JUS SPERNIANDI - Ilton C. Dellandréa


A IMPARCIALIDADE DO JUIZ: MERA DIVAGAÇÃO

A Tell (Tagarela), no dia 09/07/2004, postou um comentário sobre uma sentença minha e indagou: “Só me mate uma curiosidade: Atuando como juiz, é realmente possível ficar imparcial???

Hoje, pesquisando nos meus alfarrábios eletrônicos encontrei, por acaso, um texto – seguramente inacabado – que em parte aborda o assunto. É de 19/06/1996, quando eu era Juiz no Foro da Tristeza, em Porto Alegre. Está gravado com o nome pouco criativo, mas algo sugestivo, de “Divaga”... Simples assim e assim o mantenho ao transcrevê-lo, logo abaixo.

Não lembro dos detalhes que me motivaram a escrevê-lo. Talvez fosse uma confidência minha, em tom de desabafo, para o meu computador por alguma sentença ter sido tachada de equivocada pelo Tribunal.

O computador é um ótimo repositório de desabafos. Acho que por isto tem essa denominação. Ele nunca contesta o que a gente escreve. Às vezes, talvez indignado, trava, emperra, e se não se tiver um backup de pastas e arquivos, manda tudo para o infinito desconhecido. Não tem autocrítica nenhuma nenhuma. Mas isto não interessa.

Apenas para deixar claro, jamais me incomodei quando o Tribunal reformou decisões minhas, mas detestava quando o fazia sob o pretexto de que “o douto magistrado laborou em equívoco”.

O texto segue como veio ao mundo, ou seja, no impulso da inspiração primeira, sempre a mais autêntica mas muitas vezes não a melhor redigida. Por isto pode trazer alguns dissabores.

Pena que está incompleto e truncado. Mas não faz mal. Depois de tanto tempo eu não saberia mesmo como complementá-lo e terminá-lo.

Se algum ex-coleguinha ler, talvez vá torcer o nariz. É tarde!



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 21:51
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D I V A G A

Nunca busquei mais aprofundadamente um sentido para a vida. Simplesmente porque a vida não é alguma coisa profunda. É algo extremamente simples que não sabemos nem como nos é dada e que de nós se vai de forma abrupta e também ininteligível. Dos que foram, hoje só resta o que pensaram e deixaram gravado.

De escritores se exige que leiam os clássicos: Shakespeare, Sartre, Balzac, Joyce, Cervantes, não necessariamente nessa ordem, e certamente muitos outros. De juízes se exige que conheçam Calamandrei, Chiovenda, Ihering, Savygni, Pontes, Bevilaqua, e que os citem em suas decisões. Mesmo que seja num despejo comum ou na condenação de um ladrão de bicicletas.

De certo modo me é indiferente o que pensam outros juristas. Deles busco apenas o reforço para idéias que são minhas. Ou, na dúvida, clarear meu sentido dentre aquilo que me parece mais lógico ou mais certo.

A profundidade dos cientistas é algo artificial criado para a manipulação. É um jogo de poder ao qual nos entregamos para defender idéias que agradam às minorias críticas mesmo que em violência contra nosso pensar.

Não se pode agir com medo da reação de uns poucos influentes ou mais achegados esquecendo que a exata distribuição da Justiça só pode e deve trazer satisfação plena a uma pessoa: à que julga. O resto é conseqüência natural das coisas.

Minha sentença deve ser boa para mim. Deve ser correta dentro dos meus conceitos de correção e justa dentro daquilo que me parece justo.

A parte é acidental. Não olho para ela quando decido porque sempre me parece por demais longínqua e inatingível e irreconhecível e desconhecida. É uma figura abstrata que só existe em função do processo. A parte numa ação está mais para pessoa jurídica do que para pessoa física.

O juiz é instituição permanente e fixa, independente da pessoa que julga.

No contexto decisório assume muita importância a lógica que para mim, num conceito rasteiro, é tudo aquilo que me parece certo. E o bom senso que é tudo aquilo que faz a lógica se adequar à realidade sem criar traumas ou crises de epilepsia social.

Também nunca pensei em agradar o Tribunal quando prolatei uma decisão. Tive algumas que foram definidas como "equivocadas" quando nada de equivocado manifestavam: era apenas o meu livre convencimento.

O conteúdo deste texto, por exemplo, não é um equívoco. É o meu juízo que não necessariamente corresponde ao ideário de quem o lê.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 21:44
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"HISTÓRIAS DE SONHOS E COISAS QUE VOAM"

O Movimento, portal de Música Clássica, incluiu no seu Espaço do CD comentário sobre o Sergio Olivé – que referi algumas vezes aqui – e seu cd “Histórias de Sonhos e Coisas que Voam”.

Pretendo, qualquer dia, escrever algo mais específico a respeito.

Vale à pena dar uma olhada.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 08:36
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NÃO HÁ VACINA CONTRA UM BOM CAGAÇO

A reforma do Judiciário passou em primeira votação pela Câmara Federal. Agora segue seus trâmites.

Mas perceberam que não há mais aquela publicidade toda, aquela espalhafatosa cobertura midiática que qualificava o assunto como se fosse uma solução para todos os problemas judiciais do Brasil?

Pois é. Será por quê?

Cá entre nós. É segredo! Mas me disseram que há algum desinteresse governamental na aprovação da reforma assim como está. Vou me valer de métodos jornalísticos e preservar minha fonte (embora ela tenha dito isto até em programas de televisão). Mas asseguro que é fidedigna.

É que se chegou à conclusão, após análises mais acuradas, que não é bem assim, que muita coisa precisa ser mexida para resolver o problema da morosidade da Justiça. Mas, principalmente, porque há nos altos escalões o receio de que a Súmula vinculante acabe se virando contra eles.

O cagaço não é desgosto incivil circunscrito aos desafortunados ou menos afortunados. Lá em cima ele também produz seus efeitos ordinários. 

No meu artigo O Feitiço contra o Feiticeiro escrevi que “quem põe armadilhas no caminho de ida pode cair numa delas no caminho de volta”. Mas ninguém me ouve! O que escrevo é sempre visto com olhos descrentes e bovinos.

Mas já imaginaram se o STF, num acaso muito respeitável, editar uma súmula tipo “Todo precatório, cujo conteúdo econômico contenha caráter alimentar, deve ser pago em 24 horas”? 

Sei, desculpem, estou sonhando demasiadamente alto. Estou voando nas asas do condor, mas é só um exemplo. Só um exemplo. Até porque o Brasil teria que declarar falência e isto ninguém quer.

A verdade é que as súmulas vinculantes eventualmente poderão voltar-se contra os interesses do próprio Governo ou de suas autarquias e empresas (em casos como o do FGTS, do confisco das poupanças e outros), ou contra grandes grupos econômicos, ou contra os Bancos...

É, talvez fosse melhor deixar como está!

Por isto eles estão com as barbas – literalmente – de molho.   



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 10:50
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CATARINA, MINHA SANTA

No Espelho sem Aço, o fotoblog do JUS SPERNIANDI, e que consta ali do lado, publico imagens de toda espécie.

O critério é a mais absoluta falta de critério na seleção. Vai de tudo, desde que fotos tiradas por mim ou familiares ou autorizadas.

Ontem, procurando entre as centenas de fotografias aqui de casa, encontrei uma de Florianópolis, Capital da Catarina, minha Santa de origem, um instantâneo em que a rua Felipe Schmidt aparece quase sem nenhum carro!

Coisa rara.

A foto é do final dos anos 70 do século XX e transmite um silêncio, uma paz, uma tranqüilidade que hoje não se sente mais, pelo menos naquele retângulo ocupado pela imagem. Acho que era um domingo de manhã e toda a população estava contritamente na missa.

Disponibilizei sua utilização ao Carlos Damião, um novel blogueiro como eu, especialista na publicação de imagens raras de uma Santa Catarina antiga, quando ela era mais santa, mais jovem mas não mais bela, pois continua linda como sempre. Ele a colocou em seu blog.

Só não gosto do trânsito da ilha. Trauma do tempo de estudante: eu morava no continente e tinha que ir até à Trindade para estudar. Filas imensas no acesso à ponte Hercílio Luz – única então – e eu, azarado, escolhia sempre aquela que se movimentava mais lentamente. Cheguei a suspeitar que os guardas, quando viam o meu fusquinha azul lá embaixo, perto do quartel do Exército, decidiam fazer aquela fila andar mais devagar. Então começava o festival do buzinaço. Muitos daqueles guardinhas devem ter sido aposentados precocemente por traumas de guerra...

Até hoje não consigo ir para lá sem que enfrente algum engarrafamento, ou por acidente, ou por obras na via pública, ou por outro desígnio paranormal cujo mistério não consigo decifrar. Meu irmão que mora na ilha, é testemunha. Suspeita, é claro, por ser meu irmão, mas insuspeita porque deve estar cansado de minhas rezingas toda vez que chego.

Povo politizado e perspicaz (pessoalmente não gosto do epíteto manezinho que lhe impingiram e que se tornou oficial), pelo menos três fatos me afloram à memória, atestando esses caracteres: na Praça XV foi flagrado um ministro do TST em viagem turística com um carro oficial. A placa original estava escamoteada por uma fria, sobreposta. Foi um bafafá, quase viraram o veículo e o caso acabou na polícia, digo, em pizza (provavelmente).

Agora, nos últimos dias, o levante de estudantes e de outros segmentos sociais usuários de ônibus tomados pela indignação ética e protestando contra o aumento abusivo dos preços das tarifas. 

Ali também o ex-Presidente Figueiredo e comitiva descobriram que o exercício do populismo é para quem é popular. Ignoraram e minimizaram vaias de que eram alvo e saíram a pé do Palácio do Governo rumo ao Ponto Chic – o local da assembléia popular permanente mais democrática do mundo, onde um senador que não era senador monopolizava as atenções por sua mordaz ironia – para tomar um cafezinho. Levaram uns trompaços e calçapés e o César Cals, se não me engano Ministro de Minas e Energia, um sopapo no pé da orelha, de um taxista.

Dizem que ele perdeu o equilíbrio e caiu. Foi uma premonição. A Ditadura Militar desabou logo depois.  



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 08:52
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LIRA DO POVO

Quem aprecia uma boa música, brasileira, de raiz, sem concessões comercialescas, límpida e cristalina, sem apelação, bem interpretada e extremamente agradável, não pode deixar de ouvir o cd "Lira do Povo", de Kátya Teixeira (seu site está entre os meus indicados desde o início do blog). Adquiri e ouvi. Várias vezes.

Ele não é só música. É um documento histórico importante e comovente, com manifestações populares e folclóricas de extremo bom gosto e sensibilidade. É universal no canto de várias aldeias – inclusive do primevo habitante desta terra – e há lugar garantido para ele em nosso meio cultural.

Para os que estão saturados de tchans, pagodes e de outras manifestações efêmeras da pseudomúsica em que se valoriza mais a bunda das dançarinas acompanhantes do que a qualidade da obra de arte, é uma alternativa sem precedentes.

A capa do cd, fora do convencional, também é primorosa: ele não vem naquelas caixinhas de plástico, mas num álbum que se desdobra em três partes, de papelão reciclado. As folhas do livreto vêm atadas artesanalmente, com vime.

Ouvi (e vi) Kátya Teixeira num programa – se não me engano Balaio Brasil, da Rede Senac – há alguns meses, e fiquei impressionado. Foi no lançamento do cd Katxerê que, infelizmente, está esgotado. Na época enviei e-mails a todos os meus contatos mais ou menos com o teor desta mensagem.

Ela esteve, há alguns anos, aqui pelo Sul recolhendo material para o disco. Só daí já se vê a seriedade do trabalho. Artistas desse naipe devem ser valorizados.

Ela esclareceu num e-mail: “em minha breve passagem pela Barra da Lagoa e Lagoa da Conceição, das histórias que ouvi surgiu uma canção – Nas Teias da Renda – que está no primeiro cd, Katxerê”.

No site, há faixas deste cd que podem ser ouvidas via Internet e delas é possível visualizar a qualidade da obra.

Sobre o lançamento de agora é ainda ela quem afirma: “O cd Lira do Povo faz parte de uma trilogia que quero realizar, sendo que os outros dois só de cantos de trabalho e cantos religiosos e acredito que o Sul tem muito a oferecer”.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 23:42
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NOVAMENTE É SÁBADO

Sábado passado falei aqui sobre a dificuldade de manter um blog.

É muito difícil, se não impossível, escrever todo o dia alguma coisa nova ou, pelo menos, atraente ou, ainda, sem cair no lugar comum.

Hoje, novamente, é sábado. A semana passou como se tivesse tido no máximo dois ou três dias.

Não há como fugir a um paralelo com o tempo em que era juiz de primeira instância. Com a pauta empanturrada até o gargalo, as audiências eram designadas para daí a três ou quatro meses. Algumas vezes um processo chamava a atenção e, quando menos se esperava, lá estava ele, sobre a mesa. O dia havia chegado com uma rapidez imprópria ao sistema horário estabelecido: a Terra girara mais rápido em seu eixo e as horas haviam se transformado em minutos.

– Já? Tenho a impressão que marquei esta audiência na semana passada!

Quando o tempo parece correr mais rápido a sensação é a de que se envelhece mais ligeiro.

Os mancais dos eixos da Terra são azeitados por algum óleo especial, com ingredientes de Eternidade. Por isto não desgastam e o tempo não pára, não pára.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 08:43
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A BUSCA DO TEMPO ANTERIOR

Poesia publicada no Caderno de Literatura do Projeto DivulgaArte, da AJURIS, em junho de 1999.

(Canto II: Agitato, speranzoso)

 

Atropelam minha cabeça pesadelos revoltos

como pássaros confusos.

Desaninhados.

 

Nada sei de ti, que amei sempre

num silêncio agitado e inquieto,

num refolho cardíaco

que nem a fibrilação espanta...

 

Nada faço senão esperar,

cultivando a saudade de alguém que foi embora

mas de mim jamais saiu.

 

Mas vou te encontrar um dia

– eu prometo! –

e abraçar-te, quieto,

suavemente aconchegar-te,

aconchegar-me:

seremos duas almas serenas,

silenciosas,

relembrando vidas passadas.

 

Será que algum dia existimos?

Ou fomos sombras sem figura que passamos?

 

Espantalho dos pássaros furiosos,

voltarei a vigiar, depois,

reconfortado,

a saudade de um abraço eterno

que eu guardei para ti

por trinta séculos.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 08:31
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EEEEEUUU?

Para a Ieda, pintar esse quadro aí, foi tarefa fácil.

O difícil foi para mim, obrigado a posar horas a fio nessa posição ingrata.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 17:09
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O MOBRAL "ANALFABETIZOU" CRIANÇAS

Esta semana, ISTOÉ e VEJA (edições nº 1813 e 1861, respectivamente) trazem matérias semelhantes, mas em contextos distintos e que provocam conclusões também distintas, mas que devem ser canalizadas num só objetivo.

ISTOÉ (página 40) louva o programa de alfabetização no Acre, salientando a alegria de adultos que finalmente conseguem escrever um bilhete simples como “eu fui para aula se quiser comi da esquente foi eu que escrevi”.

VEJA, na coluna RADAR, de Lauro Jardim (página 34), refere falhas do programa de livros didáticos e aponta que “a habilidade do estudante brasileiro para leitura foi considerada a pior num estudo recente feito em 32 países”.

Emoções à parte, já é possível perceber a perplexidade que a contradição dessas constatações provoca. Mas é preciso acrescentar mais um ingrediente.

Nos anos 70 do século XX foi lançado no Brasil um programa visando alfabetizar a população adulta, o MOBRAL – Movimento Brasileiro para Alfabetização de Adultos. Talvez por seu gigantismo, tão em voga no tempo da ditadura, não tenha produzido bons resultados como o programa do Acre parece apresentar.

Mas o que dói é concluir que se hoje ainda temos adultos analfabetos é porque, naquela época, foi descurada exatamente a alfabetização infanto-juvenil. Significa que se os imensos recursos do MOBRAL tivessem sido aplicados na alfabetização de crianças certamente não teríamos hoje tantos adultos analfabetos no Acre (assim como em todos os Estados da Federação), que eram crianças quando foi lançado o movimento.

Vale perguntar: os adultos alfabetizados nos anos 70 aproveitaram o que lhes foi transmitido? Não creio. A maioria, porque o tempo é inexorável e não pára, já deve ter morrido. De certa forma, por mais insensível que possa parecer esta assertiva, a realização mais concreta do MOBRAL – embora possíveis boas intenções de seus idealizadores – foi desperdiçar dinheiro.

Os adultos têm mais dificuldade de aprendizado e ser alfabetizado não significa, apenas, saber ler letreiros grandes nas ruas das cidades ou nas telas da televisão e escrever bilhetes simples. A formação de uma criança até o curso superior leva, em média, 12 anos. Um adulto do Acre teria muita coisa a aprender até poder ser considerado alfabetizado.

Por isto, diante da dicotomia apontada, cabe perguntar: as crianças do Acre, e do resto do país, estão sendo convenientemente alfabetizadas hoje?

Porque, sem dúvida, numa escala de valores sócio-científicos, é mais importante alfabetizar crianças do que adultos. Se conseguirmos manter na sala de aula todas as crianças em idade escolar de hoje, dentro de 50 anos – numa expectativa pessimista – não teremos mais analfabetos no país.

A causa do analfabetismo adulto é a não alfabetização de crianças e esta é que deve ser combatida. Isto é óbvio, mas o óbvio, às vezes, é difícil de ser entendido. Galileu quase foi lançado à fogueira porque afirmou que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. O analfabetismo adulto é uma conseqüência.

Temos que canalizar atenção e recursos para a formação escolar das crianças hoje para evitar que, daqui a 30 anos, o Brasil volte a se preocupar com programas de alfabetização de adultos, de duvidosa significância social e incapazes de recuperar a cidadania ampla a que todos têm direito. 



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 16:27
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OS MECENAS, HOJE, SÃO ASSIM

Há alguns dias postei aqui uma matéria sobre o site movimento.com, que considero importante por tratar de música erudita mais adstrito ao Brasil e seus eventos.

Em seguida mandei um e-mail ao Antonio Rodrigues, o responsável, comunicando-lhe. Também lhe pedi o endereço para enviar um cd do Sergio Olivé.

Ele não retornou.

Reclamei – no bom sentido – e esclareci que, se não queria fornecer o endereço, tudo bem (a negativa poderia integrar a filosofia do próprio site), mas que eu gostaria de saber a opinião sobre o post.

Ele respondeu em dois e-mails, que estou condensando:

Caro Ilton, não é nada disso. Não sei se você sabe, acho que sim, mas eu trabalho absolutamente sozinho no portal.

Se você freqüenta assiduamente o movimento.com, e acho que sim também, pode verificar a mudança de matérias com foto na primeira página.

Isso tudo eu faço sozinho e, muitas vezes, ainda tenho que catar as fotos, pois as produções não mandam (...).

Além disso, ainda tenho meu trabalho, pois não vivo de vento e, no mais das vezes, não durmo antes de 2 da manhã. Às 7 ou 7,30 estou de pé.

Ainda trabalho como vendedor de tintas para embalagens e, como tal, tenho que visitar clientes como qq mortal. 

Além do que eu disse, ainda canto num coral e sou o presidente dele, trabalhando para arranjar compromissos pagos”.

 Há alguma força interna, incompreensível até certo ponto, que move certas pessoas a se dedicar a um ideal, como a Arte, sem esperar uma contraprestação justa. Mas, certamente, de alguma forma, algum dia seus esforços serão recompensados.

Um abraço, Antonio.

Ah! Ontem lhe enviei o cd.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 17:28
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RACHANDO FIOS DE CABELO

 

 

Às vezes providências simples têm o poder de resolver problemas tormentosos. No âmbito do Judiciário pode, inclusive, acelerar o andamento processual e, conseqüentemente, amenizar a tão tristemente apontada morosidade da Justiça.

Assim que assumi a judicância na Comarca de Espumoso vieram conclusos os autos de uma separação judicial paralisada há cinco anos porque os cônjuges não chegavam a um acordo quanto à partilha de bens.

Constando do processo relação completa destes, avaliados, proferi o despacho que segue abaixo, partilhando eqüitativamente o acervo.

Vinte e quatro horas depois o casal pediu reconsideração e, consensualmente, apresentou seu Plano de Partilha, que foi homologado e cumprido.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 23:59
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Vistos, em deliberação de partilha:

1. Inviável, pelo que consta nos autos, partilha amigável, cumpre deliberar sobre a destinação dos bens:

QUANTO AOS BENS IMÓVEIS:

2. Em atenção ao princípio contido no artigo 1.775, do Código Civil, cada um dos cônjuges receberá a metade ideal de cada um dos imóveis arrolados nos autos.

3. Com isto se procura fazer justiça, pois que assim cada um receberá metade do que “é bom e metade do que é ruim, metade do certo e metade do duvidoso”, no dizer de provectos juristas.

4. Embora o INCRA não permita a divisão de áreas aquém do módulo rural, o Direito Civil estabelece claramente as normas de extinção de condomínio de que poder-se-ão valer as partes, feitas as necessárias transcrições.

QUANTO AOS BENS MÓVEIS:

5. Cada cônjuge receberá: um saco e três quartos de arroz com casca; dois sacos de amendoim; a metade de uma quarta de terra plantada, de mandioca; três feixes de vassoura; trinta e cinco quilos de milho de pipoca; dois arados de tração animal; três suínos e meio; sete quilos e meio de banha; um saco e meio de feijão “mouro”; uma máquina de moer carne; três camas de solteiro; uma dúzia e meia de pratos; um ferro de passar roupa; seis formas de pão e doce; doze vidros e meio de compota de doces; um jogo de lata; um botijão de gás; trinta e cinco galinhas; e duas ovelhas e meia.

6. Dos bens móveis indivisíveis tocará à mulher: o fogão a gás, marca Admiral; o jogo de copa de fórmica, composto de um armário, uma mesa e seis cadeiras; a pia de cozinha, de fórmica; a máquina de costura marca National; três quadros de parede; um rádio de balcão marca SEMP. Ao varão, tocará: uma carroça, de quatro rodas, um fogão a lenha, n.º 2; um terno de sala completo, de fórmica, com um sofá-cama, duas poltronas e uma mesa de centro; dois roupeiros, um de casal e um de solteiro; três bacias de alumínio.

7. Cada um receberá, ainda, um tacho de fabricar banha; o outro tacho, o cavalo de doze anos (que hoje deve estar bem mais velho) e o quebrador de milho, com serra circular e motor, por impossibilidade de divisão, deverão ser vendidos em hasta pública.

8. Ficam excluídos da partilha: quatro bois de canga, duas vacas, quatro novilhas, dois novilhos e uma égua, que foram alienados, conforme documentos de fls. As partes deverão se utilizar do procedimento viável, das vias ordinárias, para haver seus direitos a respeito.

9. Proceda o senhor Escrivão ao Esboço de Partilha, de acordo com o artigo 1.023, do C.P.C.

Espumoso, 07 de fevereiro de 1.984.

(a) ILTON CARLOS DELLANDRÉA – Juiz de Direito



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 23:50
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A PONTE VELHA DE TAIÓ

Sergio Olivé (o seu site está ali do lado), em seu cd “História de Sonhos e Coisas que Voam”, com belas músicas de sua autoria, gravou uma chamada “O Trem Abandonado e os Fantasmas”.

Explica ele:

Toda vez que alguém perde um trem que queria muito pegar, um pedaço de sua alma fica vagando pela estação à espera do que nunca acontecerá. Esta é a história de uma locomotiva abandonada que sofreu durante sua vida útil por ver esses restos de desejos e vontades. Agora percorre a estrada de ferro durante as noites levando as almas tristes ao encontro do que queriam ter achado, devolvendo-lhes a paz”.

Em Taió, Santa Catarina, há uma ponte cansada depois de muitos e muitos anos de serviços prestados. Hoje goza seu descanso compulsório. Pelo seu estado, vê-se que está um pouco abandonada, mas isto é comum neste país: os aposentados de todos os gêneros são institucionalmente desmerecidos.

A velha ponte de Taió não mais une nem separa.

Tomara que nenhuma alma tenha permanecido presa nela, porque a locomotiva do Sergio não pode passar por ali.

Mas eu sei que em tempo de enchente grande, há muitos e muitos anos, um casal se aventurou a passar embaixo dela num pequeno bote, quando a água estava quase rente ao tabuleiro. Foi tragado pela forte correnteza formada nas laterais dos pilares de pedra que a sustentam.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 12:17
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O VENTO LÁ FORA MISTURA IDÉIAS AQUI DENTRO

Não sabia que manter um blog fosse tão trabalhoso.

Deixei de lado muitas coisas que vinha fazendo normalmente.

Há uma semana não vejo um filme... Vinha assistindo a pelo menos um por dia.

Acabo de desempacotar seis dvds que adquiri do Submarino e que estavam esquecidos num canto do escritório desde o dia 25: Sacco & Vanzetti, Rocco e seus Irmãos, A Fonte da Donzela, Minha Vida de Cachorro, Viridiana e Gritos e Sussurros

Isto nunca aconteceu antes. Sempre abri os pacotes frenética e imediatamente, com vontade, e logo me punha a ver.

Mas agora cheguei a cumular outros, que comprei há mais tempo, e não vi ainda: Excalibur, O Longo Caminho para Casa, Henry & June, O Anjo Azul, O Turista Acidental, A Última Tentação de Cristo, Procurando Nemo e... bem, e Tigrão. Tenho uma filha casada e espero ter netos, algum dia.

Hoje vou parar para ver um filme.

Provavelmente eu durma grande parte do tempo, mas não faz mal. A Ieda de vez em quando dá uns pigarros providenciais.

Talvez eu veja dois.

Um desses aí, possívelmente.

E outro vou rever. E neste, não vou dormir, com certeza.

Não sei qual, mas um com o Marlon Brando.

Talvez Apocalipse Now, versão integral.

Ou A Face Oculta – já que ontem falei de faroeste aqui – em que ele dirigiu a si próprio.

Ou Sindicato de Ladrões, ou O Selvagem, ou Um Bonde Chamado Desejo, que por aqui insistem em chamar de Uma Rua Chamada Pecado. Nada a ver!

Gosto dos filmes baseados em peças teatrais pela riqueza e objetividade dos diálogos...

Talvez A Cartada Final.

Não sei.

Um desses, como homenagem.

Marlon Brando morreu mas não morreu. Alguém disse, eu não lembro quem, depois que inventaram o cinema: “a partir de agora a morte nunca mais será a mesma”. E não é.

Não posso acreditar que alguém que eu vejo ali na tela, se movimentando, correndo, pulando, gritando, amando, até morrendo, esteja realmente morto.

Estou bastante dispersivo. Comecei a falar do blog, passei por filmes, netos, Marlon Brando, morte...

Vou parar por aqui e ligar minha aparelhagem.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 20:10
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MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA

Hollywood é uma fábrica de filmes. De lá saem verdadeiras obras-primas e também filmecos descategorizados. A celulose que se gasta com besteiras em Los Angeles, num ano, seria suficiente para fazer cinema no Brasil durante uns dez.

Mas há bons e ótimos filmes gerados nas mentes e engenhos hollywoodianos. Afinal, sua especialidade é exatamente essa, e se não é obrigada a produzir obras-primas todos os dias também não se dá ao desleixo de lançar apenas bombas, como se dizia na minha infância.

 Esta – a minha infância – me inspira a abordar um gênero prosaico e nostálgico, que apreciava então (se dissesse que não aprecio mais, estaria mentindo): o faroeste. Aliás, gosto de todo o tipo de filme, desde que seja bom, é claro. Dizer o óbvio não custa nada!

Meu Ódio Será sua Herança, de Sam Peckimpah, é imperdível para quem gosta do gênero. Diríamos, naquele tempo, que é um farvestão (embora fôssemos ao cinema mais para ver tiros, duelos e brigas do que para analisar as qualidades intrínsecas e extrínsecas da fita).

Como quase sempre, a tradução do título não foi feliz. O filme não esclarece quem herda o ódio de quem e o nome deve ter sido pensado mais como uma hipérbole mal acabada e por seu impacto sonoro do que em razão do enredo. The Wild Bunch, o original, significa algo como O Bando Selvagem, o que também não diz muito, pois imprecisamente genérico.

O filme narra a saga de um grupo de bandoleiros em fim de carreira que, no início do século XX, tenta dar um último e lucrativo golpe e se aposentar: roubar um carregamento de armas do Exército americano e contrabandeá-lo para o general mexicano Mapache. Mas tem em seu encalço implacável um ex-comparsa, anteriormente preso, do lado da lei em parte por chantagem, contratado para caçá-lo, e que vai fazer de tudo para impedir o sucesso.

O final megalômano, ao gosto americano (quatro ou cinco bandoleiros conseguem quase dizimar o exército mexicano rebelde antes de serem mortos), não compromete o resultado final.

Foi muito elogiada a estruturação inovadora, principalmente o uso de câmera lenta e do freqüente zoom circunstancial, mas este tipo de análise fica ao encargo de técnicos. Em qualquer site especializado essas inovações vêm bem explicadinhas. Para mim, o importante, são outros aspectos, que me impressionam pessoalmente e, por isto, não se deve acreditar incondicionalmente no que escrevo.

O filme evidencia preocupação com o social ao retratar um povoado mexicano de extrema pobreza, assaltado tanto por governistas quanto por rebeldes. Os homens estão na guerra e ali permanecem apenas mulheres, crianças e velhos sem ter como prover suas necessidades. É mostrada, também, a tentativa européia de estender para a região o seu imperialismo tardio, já próximo à I Guerra Mundial: o general Mapache é assessorado por integrantes do Exército Imperial Alemão na luta contra os seguidores de Pancho Villa.

Há cenas insólitas, como a da negociação do general com o bando, durante um banquete suntuoso, enquanto entre as mesas passa o cortejo fúnebre de uma mulher cujo corpo é carregado por velhas senhoras rezando em voz alta.

Uma das mais tocantes é retratada quando o bando sai do povoado, onde se refugiara após um frustrado assalto. Um dos bandoleiros é um jovem mexicano, que parte com dúplice objetivo: ajudar os demais e buscar a mulher que o abandonara para seguir o general Mapache. Depois, durante a jornada, resolve desviar parte das armas para sua vila. Estes dois fatos acabam por influir definitivamente na sorte da empreitada.

Quando os bandoleiros se retiram, a mãe do mexicano se aproxima e entrega ao filho, já montado, um embrulho pobremente acondicionado em pano branco, talvez um pequeno farnel de última hora, daqueles que só as mães sabem que poderão fazer falta ao filho que parte. Antes, um americano recebera uma flor e outro um sombrero, de duas moçoilas. Enquanto isto os povoeiros, formando um corredor por onde vão passando os cavaleiros, entoam, com vozes esperançosas, a pungente La Golondrina.

Para mim, vale o filme.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 13:58
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Gravura escaneada da capa do dvd Meu Ódio Será sua Herança, da Warner Bros, versão do diretor Sam Peckinpah.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 21:14
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CELEBRIDADE: RESTOS MORTAIS

Quando abri esta página fiz constar, ali do lado esquerdo, o link do Observatório da Imprensa, que freqüento sempre que possível, exceto nas quintas-feiras: nestas, visito-o religiosamente, com a devoção de um monge beneditino embora com objetivos puramente profanos.

É um site sério, ilustrado por jornalistas idem, sob a editoria-responsável (nos dois sentidos) de Alberto Dines, e aborda a imprensa, seus acertos e as crises orbitantes. Geralmente é uma crítica da crítica. Muito apropriado o slogan: “Você nunca mais vai ler jornal no mesmo jeito”.

Na edição de hoje há, entre outros, um artigo daqueles que se lê e se sente frustrado por não ser o autor. A mim faltaria, além do talento, conhecimento de causa para chegar às conclusões de Nelson Hoineff em “Teledramaturgia e o legado de Lineu”. Caras, por exemplo, só folheio quando estou adoentado. Essa revista parece que se tornou obrigatória nas ante-salas dos consultórios médicos. Fama, nunca experimentei, em nenhum sentido.

Minto. Já vivi meus trinta segundos de fama em 1986 quando descobriram uma sentença que proferira em 1984, em Espumoso. “A sentença do beijo, publicada em alguns sites jurídicos na Internet como uma peça “curiosa”, foi referida por Eliakim Araújo no Jornal Hoje, da Globo, de madrugada. Quase ninguém assistiu. Foi muito restrita e noturna a minha fama. Mesmo assim, no dia seguinte saí preparado para ouvir comentários e cumprimentos, pelo menos dos amigos e colegas. Afinal, eu tinha saído na Globo. Ninguém disse nada. Senti-me tão desolado!

O artigo de Nelson Hoineff serviu para certificar-me de que foi mesmo Nelson Rodrigues quem disse que estamos sendo governados por idiotas (há muito tempo), e que citei em “O feitiço contra o feiticeiro” (A Notícia, de Joinville, 09/07/2003), transcrito aqui em 16/06/2004. Na época tive receio de ser traído pela memória e não encontrei, em pesquisa rápida, uma confirmação. Confiei nos meus instintos e estava certo pois, segundo Hoineff:

Nelson Rodrigues (...) disse que os idiotas, quando se deram conta de que eram maioria, saíram da obscuridade e tomaram imediatamente todos os postos do poder”.

Mas, principalmente, aliviou-me. Não me sinto mais só com a minha visão nem sempre aceita da realidade. Afasto, pelo menos em parte, a tenebrosa suspeita de uma talvez incipiente insanidade.

O artigo enfoca, no início, a novela Celebridade, e deriva depois para uma abordagem mais ampla, realista e mordaz, sobre outros aspectos da relação sociedade-mídia. É importante e elucidativo e deve ser lido por todos aqueles que sabem ler e entender. Indistintamente.



Escrito por Ilton Carlos Dellandréa às 18:59
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